Andando pela rua Carlos de Carvalho, região central de Curitiba, uma visão me alegra: "Pão e Prosa". Era tudo que eu queria.
- Um café e um pão de queijo, por favor.
Insuficiente pra matar a fome e espantar o sono. Mas, agora, outra fome me acomete. A fome de escrita. Preciso prender esses pensamentos antes que eles se esvaiam.
Nesta mesma rua, há o que eu considero um dos prédios mais imponentes da cidade. O Curitiba Business Center. A entrada cheia de vidraças, sobre a qual se ergue uma torre de janelas espelhadas. No alto, um relógio que pode ser avistado de longe e serve de referência.
Ao lado do prédio que é exemplo de sofisticação e modernidade, sobrevive uma outra construção rosada com detalhes em branco. O estilo arqutetônico denuncia que o prédio faz parte de outro período da história curitibana, bem mais longínquo.
Os muros tomados por pixações. O interior aparentemente abandonado. A propaganda da empresa de monitoramento pendurada na janela deixa clara a preocupação com a insegurança. Ali, hoje funciona um estacionamento.
Em Curitiba, esses contrastes entre o moderno e o antigo são comuns. Uma cidade que cresceu e se modernizou, mas que ainda procura preservar aquele ar dos anos 30. Apesar dos esforços, com o progresso econômico e empresarial, a história vai ficando submersa. Ou passa despercebida.
Aos transeuntes da Carlos de Carvalho, é difícil supor que aquele prédio no número 369 abrigou um "moderno centro cultural" criado pela Sociedade União Juventus. Até quando durou e porque se acabou eu ainda terei que descobrir. Mas aí, já é outro capítulo...
Centro cultural ou prédio abandonado?
Marcadores: Curitiba , Juventus , Rua Carlos de Carvalho
Retrato de uma revolução que não acabou
1968: um ano que marcou a história do Brasil e do mundo. Na França, uma greve geral adquiriu proporções revolucionárias, momento que ficou conhecido como “maio de 68”. No Brasil, a revolução sexual e as reivindicações do movimento estudantil contrastavam com a ditadura militar. O ano foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.
Vinte anos depois, o jornalista Zuenir Ventura procura resgatar os acontecimentos desse ano no Brasil – em muitos dos quais o próprio autor esteve envolvido – e levar ao leitor o clima da época. O resultado é o livro-reportagem “1968 – ano que não terminou”, publicado em 1988 pela editora Nova Fronteira.
O começo de tudo se dá no “Réveillon na casa da Helô”, como era conhecida a escritora e crítica literária, Heloísa Buarque de Holanda. Conforme o autor, os rumos tomados pela festa, que reuniu artistas e intelectuais, anunciavam que aquele ano seria movimentado. Como de fato foi.
Ao longo das 314 páginas, o leitor encontra reconstituição de fatos marcantes que se seguiram àquele réveillon. A morte do estudante Edson Luís num confronto com policiais no restaurante Calabouço, o local de concentração dos estudantes. A missa da Candelária em que os 600 participantes foram escoltados pelos padres para que pudessem fugir do cerco e da violência policiais. As barricadas na rua e os confrontos entre os estudantes e policiais no nosso “maio de 68”. A passeata dos Cem Mil, momento de glória do Movimento estudantil. E, o trágico desfecho do ano, o decreto do AI-5, pelo presidente Costa e Silva.
Além de resgatar esses e outros fatos importantes, o livro traz subsídios para compreender a efervescência daquele período, marcado pelo movimento estudantil ativo e corajoso, mas nem tão bem organizado. Foi um período de predominância jovem. Pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança. Em uma entrevista a Jair Stangler, repórter do Último Segundo, Zuenir Ventura analisa: “é curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.”
O autor também foi testemunha de alguns dos principais acontecimentos daquele ano: participou das passeatas e das assembléias, estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís e chegou a ser preso graças ao AI-5.
As manifestações do ponto de vista do autor são comedidas. Pode-se dizer que ele minimizou sua participação nos acontecimentos, mas não se excluiu da narrativa. Quase a totalidade dos relatos contido no livro são frutos de um trabalho profundo de apuração com entrevistas e uma lista vasta de fontes de consulta. Ainda assim, é notável o envolvimento do autor nos fatos e sua identificação com o tema.
“1968 – ao ano que não terminou”, é uma leitura fundamental para conhecer a fundo esse período importante na história do Brasil. Funciona também como um jogo de memória, pois são tantos personagens citados, que chega a ser um desafio lembrar-se de todos eles.
Comparada a outros livros-reportagem a obra deixa um pouco a desejar na questão de estilo. A impressão é de que o autor deu prioridade ao conteúdo em detrimento da forma e de que ele preferiu dedicar-se mais à apuração do que aos recursos literários. O resultado, é que a leitura não flui tão bem, quanto em outros livros do gênero. Ainda assim, o fato não impediu o livro de tornar-se um best-seller.
O segredo do sucesso, além do trabalho de resgate histórico do autor, é o fascínio que o ano de 1968 desperta ainda hoje. A ditadura e o temido AI-5, que perdurou por dez anos, deixaram seus resquícios e ainda provocam temor. No comportamento dos jovens de agora os efeitos são visíveis, a liberdade sexual e a pílula anticoncepcional, tão comuns hoje em dia, são heranças daquela época. No campo das personalidades, muitos artistas e políticos em voga atualmente participaram dos eventos daquele ano lutando de alguma forma contra a ditadura e contra a repressão. Passados mais de quarenta anos, tem-se a certeza do que o título afirma: o ano de 1968 ainda não terminou...
Marcadores: 1968 , ditadura militar , literatura , movimento estudantil , resenha , Zuenir Ventura
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Centro cultural ou prédio abandonado? |
Andando pela rua Carlos de Carvalho, região central de Curitiba, uma visão me alegra: "Pão e Prosa". Era tudo que eu queria.
- Um café e um pão de queijo, por favor.
Insuficiente pra matar a fome e espantar o sono. Mas, agora, outra fome me acomete. A fome de escrita. Preciso prender esses pensamentos antes que eles se esvaiam.
Nesta mesma rua, há o que eu considero um dos prédios mais imponentes da cidade. O Curitiba Business Center. A entrada cheia de vidraças, sobre a qual se ergue uma torre de janelas espelhadas. No alto, um relógio que pode ser avistado de longe e serve de referência.
Ao lado do prédio que é exemplo de sofisticação e modernidade, sobrevive uma outra construção rosada com detalhes em branco. O estilo arqutetônico denuncia que o prédio faz parte de outro período da história curitibana, bem mais longínquo.
Os muros tomados por pixações. O interior aparentemente abandonado. A propaganda da empresa de monitoramento pendurada na janela deixa clara a preocupação com a insegurança. Ali, hoje funciona um estacionamento.
Em Curitiba, esses contrastes entre o moderno e o antigo são comuns. Uma cidade que cresceu e se modernizou, mas que ainda procura preservar aquele ar dos anos 30. Apesar dos esforços, com o progresso econômico e empresarial, a história vai ficando submersa. Ou passa despercebida.
Aos transeuntes da Carlos de Carvalho, é difícil supor que aquele prédio no número 369 abrigou um "moderno centro cultural" criado pela Sociedade União Juventus. Até quando durou e porque se acabou eu ainda terei que descobrir. Mas aí, já é outro capítulo...
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Retrato de uma revolução que não acabou |
1968: um ano que marcou a história do Brasil e do mundo. Na França, uma greve geral adquiriu proporções revolucionárias, momento que ficou conhecido como “maio de 68”. No Brasil, a revolução sexual e as reivindicações do movimento estudantil contrastavam com a ditadura militar. O ano foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.
Vinte anos depois, o jornalista Zuenir Ventura procura resgatar os acontecimentos desse ano no Brasil – em muitos dos quais o próprio autor esteve envolvido – e levar ao leitor o clima da época. O resultado é o livro-reportagem “1968 – ano que não terminou”, publicado em 1988 pela editora Nova Fronteira.
O começo de tudo se dá no “Réveillon na casa da Helô”, como era conhecida a escritora e crítica literária, Heloísa Buarque de Holanda. Conforme o autor, os rumos tomados pela festa, que reuniu artistas e intelectuais, anunciavam que aquele ano seria movimentado. Como de fato foi.
Ao longo das 314 páginas, o leitor encontra reconstituição de fatos marcantes que se seguiram àquele réveillon. A morte do estudante Edson Luís num confronto com policiais no restaurante Calabouço, o local de concentração dos estudantes. A missa da Candelária em que os 600 participantes foram escoltados pelos padres para que pudessem fugir do cerco e da violência policiais. As barricadas na rua e os confrontos entre os estudantes e policiais no nosso “maio de 68”. A passeata dos Cem Mil, momento de glória do Movimento estudantil. E, o trágico desfecho do ano, o decreto do AI-5, pelo presidente Costa e Silva.
Além de resgatar esses e outros fatos importantes, o livro traz subsídios para compreender a efervescência daquele período, marcado pelo movimento estudantil ativo e corajoso, mas nem tão bem organizado. Foi um período de predominância jovem. Pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança. Em uma entrevista a Jair Stangler, repórter do Último Segundo, Zuenir Ventura analisa: “é curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.”
O autor também foi testemunha de alguns dos principais acontecimentos daquele ano: participou das passeatas e das assembléias, estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís e chegou a ser preso graças ao AI-5.
As manifestações do ponto de vista do autor são comedidas. Pode-se dizer que ele minimizou sua participação nos acontecimentos, mas não se excluiu da narrativa. Quase a totalidade dos relatos contido no livro são frutos de um trabalho profundo de apuração com entrevistas e uma lista vasta de fontes de consulta. Ainda assim, é notável o envolvimento do autor nos fatos e sua identificação com o tema.
“1968 – ao ano que não terminou”, é uma leitura fundamental para conhecer a fundo esse período importante na história do Brasil. Funciona também como um jogo de memória, pois são tantos personagens citados, que chega a ser um desafio lembrar-se de todos eles.
Comparada a outros livros-reportagem a obra deixa um pouco a desejar na questão de estilo. A impressão é de que o autor deu prioridade ao conteúdo em detrimento da forma e de que ele preferiu dedicar-se mais à apuração do que aos recursos literários. O resultado, é que a leitura não flui tão bem, quanto em outros livros do gênero. Ainda assim, o fato não impediu o livro de tornar-se um best-seller.
O segredo do sucesso, além do trabalho de resgate histórico do autor, é o fascínio que o ano de 1968 desperta ainda hoje. A ditadura e o temido AI-5, que perdurou por dez anos, deixaram seus resquícios e ainda provocam temor. No comportamento dos jovens de agora os efeitos são visíveis, a liberdade sexual e a pílula anticoncepcional, tão comuns hoje em dia, são heranças daquela época. No campo das personalidades, muitos artistas e políticos em voga atualmente participaram dos eventos daquele ano lutando de alguma forma contra a ditadura e contra a repressão. Passados mais de quarenta anos, tem-se a certeza do que o título afirma: o ano de 1968 ainda não terminou...

