Cuidado. Atrás daquele balcão de banca de jornal encontra-se um homem subversivo. Quem entra na Banca Nadolny, certamente, não se sente ameaçado por aquele senhor de cabelos brancos e de porte físico que pende mais para o tipo franzino. Ah... mas ele já botou medo em militares e generais.
Nos idos da ditadura militar, Romeu Nadolny trabalhava na Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto (SIX) da Petrobras em São Mateus do Sul. A chefia da SIX naquela época não ficava em São Mateus. Romeu compara a situação daquele tempo com o colonialismo no Brasil. Como colônia de Portugal, as terras brasileiras serviam só para abastecer a coroa portuguesa. Assim, a SIX em São Mateus servia para abastecer a chefia da Petrobras. Tudo para a coroa, nada para a colônia.
Por ser contra, Romeu levou muito mais do que o rótulo de subversivo. Foi demitido, junto com outros companheiros, num processo intitulado de “expurgo” na imprensa da região. Hoje, ele mostra um atestado conseguido num quartel de Curitiba de que nada consta contra ele nos registros.
O atestado de bom cidadão de acordo com a lei hoje está cuidadosamente alocado em uma pasta catálogo, junto com o manifesto escrito por colegas de trabalho traidores e enviado aos superiores que acabou causando o “expurgo”. Romeu é assim. Guarda tudo. Documentos. Fotos. Livros. Datas e nomes. Parece uma biblioteca em carne viva. E do tipo raro: especializada na história de São Mateus do Sul. Nessa biblioteca, há estantes sobre a colonização polonesa, sobre a navegação no Rio Iguaçu, sobre extração da erva mate, sobre a exploração do xisto e sobre as falhas de certas personalidades são-mateuenses.
Aquele senhor atrás do balcão é de fato subversivo. Vai contra os que acham que documentos não têm importância. Que madeiras de construções antigas têm que ser jogadas fora. E, especialmente, contra os que acham que a história da sua terra não tem valor. Quem dedica um pouco do seu tempo a ouvir aquele senhor subversivo, certamente levará muita informação e conhecimento consigo.
Entre datas, nomes e subversões
Marcadores: Colonização polonesa , ditadura militar , navegação , São Mateus do Sul , xisto
Retrato de uma revolução que não acabou
1968: um ano que marcou a história do Brasil e do mundo. Na França, uma greve geral adquiriu proporções revolucionárias, momento que ficou conhecido como “maio de 68”. No Brasil, a revolução sexual e as reivindicações do movimento estudantil contrastavam com a ditadura militar. O ano foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.
Vinte anos depois, o jornalista Zuenir Ventura procura resgatar os acontecimentos desse ano no Brasil – em muitos dos quais o próprio autor esteve envolvido – e levar ao leitor o clima da época. O resultado é o livro-reportagem “1968 – ano que não terminou”, publicado em 1988 pela editora Nova Fronteira.
O começo de tudo se dá no “Réveillon na casa da Helô”, como era conhecida a escritora e crítica literária, Heloísa Buarque de Holanda. Conforme o autor, os rumos tomados pela festa, que reuniu artistas e intelectuais, anunciavam que aquele ano seria movimentado. Como de fato foi.
Ao longo das 314 páginas, o leitor encontra reconstituição de fatos marcantes que se seguiram àquele réveillon. A morte do estudante Edson Luís num confronto com policiais no restaurante Calabouço, o local de concentração dos estudantes. A missa da Candelária em que os 600 participantes foram escoltados pelos padres para que pudessem fugir do cerco e da violência policiais. As barricadas na rua e os confrontos entre os estudantes e policiais no nosso “maio de 68”. A passeata dos Cem Mil, momento de glória do Movimento estudantil. E, o trágico desfecho do ano, o decreto do AI-5, pelo presidente Costa e Silva.
Além de resgatar esses e outros fatos importantes, o livro traz subsídios para compreender a efervescência daquele período, marcado pelo movimento estudantil ativo e corajoso, mas nem tão bem organizado. Foi um período de predominância jovem. Pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança. Em uma entrevista a Jair Stangler, repórter do Último Segundo, Zuenir Ventura analisa: “é curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.”
O autor também foi testemunha de alguns dos principais acontecimentos daquele ano: participou das passeatas e das assembléias, estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís e chegou a ser preso graças ao AI-5.
As manifestações do ponto de vista do autor são comedidas. Pode-se dizer que ele minimizou sua participação nos acontecimentos, mas não se excluiu da narrativa. Quase a totalidade dos relatos contido no livro são frutos de um trabalho profundo de apuração com entrevistas e uma lista vasta de fontes de consulta. Ainda assim, é notável o envolvimento do autor nos fatos e sua identificação com o tema.
“1968 – ao ano que não terminou”, é uma leitura fundamental para conhecer a fundo esse período importante na história do Brasil. Funciona também como um jogo de memória, pois são tantos personagens citados, que chega a ser um desafio lembrar-se de todos eles.
Comparada a outros livros-reportagem a obra deixa um pouco a desejar na questão de estilo. A impressão é de que o autor deu prioridade ao conteúdo em detrimento da forma e de que ele preferiu dedicar-se mais à apuração do que aos recursos literários. O resultado, é que a leitura não flui tão bem, quanto em outros livros do gênero. Ainda assim, o fato não impediu o livro de tornar-se um best-seller.
O segredo do sucesso, além do trabalho de resgate histórico do autor, é o fascínio que o ano de 1968 desperta ainda hoje. A ditadura e o temido AI-5, que perdurou por dez anos, deixaram seus resquícios e ainda provocam temor. No comportamento dos jovens de agora os efeitos são visíveis, a liberdade sexual e a pílula anticoncepcional, tão comuns hoje em dia, são heranças daquela época. No campo das personalidades, muitos artistas e políticos em voga atualmente participaram dos eventos daquele ano lutando de alguma forma contra a ditadura e contra a repressão. Passados mais de quarenta anos, tem-se a certeza do que o título afirma: o ano de 1968 ainda não terminou...
Marcadores: 1968 , ditadura militar , literatura , movimento estudantil , resenha , Zuenir Ventura
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Cuidado. Atrás daquele balcão de banca de jornal encontra-se um homem subversivo. Quem entra na Banca Nadolny, certamente, não se sente ameaçado por aquele senhor de cabelos brancos e de porte físico que pende mais para o tipo franzino. Ah... mas ele já botou medo em militares e generais.
Nos idos da ditadura militar, Romeu Nadolny trabalhava na Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto (SIX) da Petrobras em São Mateus do Sul. A chefia da SIX naquela época não ficava em São Mateus. Romeu compara a situação daquele tempo com o colonialismo no Brasil. Como colônia de Portugal, as terras brasileiras serviam só para abastecer a coroa portuguesa. Assim, a SIX em São Mateus servia para abastecer a chefia da Petrobras. Tudo para a coroa, nada para a colônia.
Por ser contra, Romeu levou muito mais do que o rótulo de subversivo. Foi demitido, junto com outros companheiros, num processo intitulado de “expurgo” na imprensa da região. Hoje, ele mostra um atestado conseguido num quartel de Curitiba de que nada consta contra ele nos registros.
O atestado de bom cidadão de acordo com a lei hoje está cuidadosamente alocado em uma pasta catálogo, junto com o manifesto escrito por colegas de trabalho traidores e enviado aos superiores que acabou causando o “expurgo”. Romeu é assim. Guarda tudo. Documentos. Fotos. Livros. Datas e nomes. Parece uma biblioteca em carne viva. E do tipo raro: especializada na história de São Mateus do Sul. Nessa biblioteca, há estantes sobre a colonização polonesa, sobre a navegação no Rio Iguaçu, sobre extração da erva mate, sobre a exploração do xisto e sobre as falhas de certas personalidades são-mateuenses.
Aquele senhor atrás do balcão é de fato subversivo. Vai contra os que acham que documentos não têm importância. Que madeiras de construções antigas têm que ser jogadas fora. E, especialmente, contra os que acham que a história da sua terra não tem valor. Quem dedica um pouco do seu tempo a ouvir aquele senhor subversivo, certamente levará muita informação e conhecimento consigo.
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1968: um ano que marcou a história do Brasil e do mundo. Na França, uma greve geral adquiriu proporções revolucionárias, momento que ficou conhecido como “maio de 68”. No Brasil, a revolução sexual e as reivindicações do movimento estudantil contrastavam com a ditadura militar. O ano foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.
Vinte anos depois, o jornalista Zuenir Ventura procura resgatar os acontecimentos desse ano no Brasil – em muitos dos quais o próprio autor esteve envolvido – e levar ao leitor o clima da época. O resultado é o livro-reportagem “1968 – ano que não terminou”, publicado em 1988 pela editora Nova Fronteira.
O começo de tudo se dá no “Réveillon na casa da Helô”, como era conhecida a escritora e crítica literária, Heloísa Buarque de Holanda. Conforme o autor, os rumos tomados pela festa, que reuniu artistas e intelectuais, anunciavam que aquele ano seria movimentado. Como de fato foi.
Ao longo das 314 páginas, o leitor encontra reconstituição de fatos marcantes que se seguiram àquele réveillon. A morte do estudante Edson Luís num confronto com policiais no restaurante Calabouço, o local de concentração dos estudantes. A missa da Candelária em que os 600 participantes foram escoltados pelos padres para que pudessem fugir do cerco e da violência policiais. As barricadas na rua e os confrontos entre os estudantes e policiais no nosso “maio de 68”. A passeata dos Cem Mil, momento de glória do Movimento estudantil. E, o trágico desfecho do ano, o decreto do AI-5, pelo presidente Costa e Silva.
Além de resgatar esses e outros fatos importantes, o livro traz subsídios para compreender a efervescência daquele período, marcado pelo movimento estudantil ativo e corajoso, mas nem tão bem organizado. Foi um período de predominância jovem. Pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança. Em uma entrevista a Jair Stangler, repórter do Último Segundo, Zuenir Ventura analisa: “é curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.”
O autor também foi testemunha de alguns dos principais acontecimentos daquele ano: participou das passeatas e das assembléias, estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís e chegou a ser preso graças ao AI-5.
As manifestações do ponto de vista do autor são comedidas. Pode-se dizer que ele minimizou sua participação nos acontecimentos, mas não se excluiu da narrativa. Quase a totalidade dos relatos contido no livro são frutos de um trabalho profundo de apuração com entrevistas e uma lista vasta de fontes de consulta. Ainda assim, é notável o envolvimento do autor nos fatos e sua identificação com o tema.
“1968 – ao ano que não terminou”, é uma leitura fundamental para conhecer a fundo esse período importante na história do Brasil. Funciona também como um jogo de memória, pois são tantos personagens citados, que chega a ser um desafio lembrar-se de todos eles.
Comparada a outros livros-reportagem a obra deixa um pouco a desejar na questão de estilo. A impressão é de que o autor deu prioridade ao conteúdo em detrimento da forma e de que ele preferiu dedicar-se mais à apuração do que aos recursos literários. O resultado, é que a leitura não flui tão bem, quanto em outros livros do gênero. Ainda assim, o fato não impediu o livro de tornar-se um best-seller.
O segredo do sucesso, além do trabalho de resgate histórico do autor, é o fascínio que o ano de 1968 desperta ainda hoje. A ditadura e o temido AI-5, que perdurou por dez anos, deixaram seus resquícios e ainda provocam temor. No comportamento dos jovens de agora os efeitos são visíveis, a liberdade sexual e a pílula anticoncepcional, tão comuns hoje em dia, são heranças daquela época. No campo das personalidades, muitos artistas e políticos em voga atualmente participaram dos eventos daquele ano lutando de alguma forma contra a ditadura e contra a repressão. Passados mais de quarenta anos, tem-se a certeza do que o título afirma: o ano de 1968 ainda não terminou...
