Em sua coluna de hoje no jornal Gazeta do Povo, Cristovão Tezza relembra seu tempo de imigrante ilegal na Alemanha. O interessante do texto dele é a consideração sobre a xenofobia no país europeu.
Vendo São Mateus do Sul hoje em dia, em que a cultura polonesa chega a ser exaltada, é fácil pensar que por aqui, não houve preconceito contra os imigrantes. No entanto, basta pensar que os poloneses que pro aqui chegaram encontraram mata fechada. Precisaram derrubar árvores no machado e arar a terra para terem o que comer.
Por outro lado, o termo polaco era tido como pejorativo, daí surgiu o termo "polonês" para que os imigrantes e descendentes não se sentissem discriminados.
Além de tudo isso, temos ainda que refletir: quem é que varre as ruas de nossa sociedade hoje em dia? Há migrantes estaduais discriminados, como há também os que cresceram na segregação e provavelmente irão morrer nela.
Bopm, reproduzo a coluna do Tezza abaixo, que também está disponível no site da Gazeta do Povo, para a qual ele escreve todas as terças.
Imigrantes
Em 1975, fui um trabalhador ilegal em Frankfurt, na Alemanha. Embora proibissem a contratação de estrangeiros sem documentação legal ou autorização oficial para o trabalho, havia uma imensa demanda de mão de obra em atividades não especializadas. Bastava uma mentira piedosa qualquer, prometendo os tais papéis para breve, que o candidato era imediatamente contratado.
O primeiro emprego, no Hospital das Clínicas, foi uma aventura arriscada que deu certo. Sem dinheiro para voltar a Portugal, onde eu estava instalado, fui aceito sem muitas perguntas e logo vi de perto uma outra Alemanha que não tinha nada a ver com os romances de Thomas Mann que eu levava na cabeça. Na verdade, eu passava minhas 12 horas de trabalho sem praticamente ver alemães. O meu chefe era um argelino. Convivia com portugueses, árabes, turcos, espanhóis, iugoslavos. O ambiente de trabalho era quase sempre agradável, e nunca me esqueço das sacolas de marmelada, pão caseiro e garrafas de vinho com que as senhoras portuguesas me presenteavam por ser um “doutor de Coimbra”, quando eu sequer tinha entrado numa sala de aula na universidade fechada por conta da Revolução dos Cravos (o que eu tentava inutilmente explicar). Em toda parte falava-se uma língua que era uma mistura eficaz de sons, gestos e palavras avulsas em várias línguas. No final da semana, eu recebia um envelope com o pagamento em dinheiro vivo – 7 marcos por hora trabalhada, uma grana respeitável para um bicho-grilo daqueles tempos. Nunca precisei assinar um recibo.
Em pouco tempo percebi o abismo que havia entre a sociedade alemã e o mundo dos imigrantes. Eram apenas trabalhadores, não cidadãos – aliás, não eram cidadãos de país nenhum. Muitos estavam lá há mais de 20 anos e não sabiam duas frases de alemão, o que parecia a regra geral dos imigrantes, todos vivendo em guetos – e que já vinham de guetos de sua própria terra, como os camponeses de Portugal. De certa forma, essa foi a regra dos países europeus ricos, que acabaram fazendo do isolamento do estrangeiro pobre uma espécie de “cada um na sua”, segundo a clássica formulação multicultural, que recusa a integração em nome do respeito à diferença. A França é uma exceção, pelo seu esforço político de fazer valer os velhos princípios iluministas de um Estado laico, obrigatórios para todos, de olho assustado na disseminação muçulmana. Mas nada parece dar certo – e o fantasma das antigas “tribos” (expressão usada pelo norueguês fanático que assombrou a tiros e bombas o paraíso nórdico) continua destroçando a utopia de uma nova Europa.
O trabalho imigrante vem varrendo o chão da sociedade do bem-estar europeu há décadas (no meu período em Frankfurt, jamais vi um alemão carregando um balde e uma vassoura), mas agora o sistema ameaça entrar em colapso. Sim, as raízes são todas econômicas, porém o nó verdadeiramente duro de desatar é cultural.
Imigração e xenofobia
Marcadores: Cristovão Tezza , imigração
Entre datas, nomes e subversões
Cuidado. Atrás daquele balcão de banca de jornal encontra-se um homem subversivo. Quem entra na Banca Nadolny, certamente, não se sente ameaçado por aquele senhor de cabelos brancos e de porte físico que pende mais para o tipo franzino. Ah... mas ele já botou medo em militares e generais.
Nos idos da ditadura militar, Romeu Nadolny trabalhava na Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto (SIX) da Petrobras em São Mateus do Sul. A chefia da SIX naquela época não ficava em São Mateus. Romeu compara a situação daquele tempo com o colonialismo no Brasil. Como colônia de Portugal, as terras brasileiras serviam só para abastecer a coroa portuguesa. Assim, a SIX em São Mateus servia para abastecer a chefia da Petrobras. Tudo para a coroa, nada para a colônia.
Por ser contra, Romeu levou muito mais do que o rótulo de subversivo. Foi demitido, junto com outros companheiros, num processo intitulado de “expurgo” na imprensa da região. Hoje, ele mostra um atestado conseguido num quartel de Curitiba de que nada consta contra ele nos registros.
O atestado de bom cidadão de acordo com a lei hoje está cuidadosamente alocado em uma pasta catálogo, junto com o manifesto escrito por colegas de trabalho traidores e enviado aos superiores que acabou causando o “expurgo”. Romeu é assim. Guarda tudo. Documentos. Fotos. Livros. Datas e nomes. Parece uma biblioteca em carne viva. E do tipo raro: especializada na história de São Mateus do Sul. Nessa biblioteca, há estantes sobre a colonização polonesa, sobre a navegação no Rio Iguaçu, sobre extração da erva mate, sobre a exploração do xisto e sobre as falhas de certas personalidades são-mateuenses.
Aquele senhor atrás do balcão é de fato subversivo. Vai contra os que acham que documentos não têm importância. Que madeiras de construções antigas têm que ser jogadas fora. E, especialmente, contra os que acham que a história da sua terra não tem valor. Quem dedica um pouco do seu tempo a ouvir aquele senhor subversivo, certamente levará muita informação e conhecimento consigo.
Marcadores: Colonização polonesa , ditadura militar , navegação , São Mateus do Sul , xisto
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Imigração e xenofobia |
Em sua coluna de hoje no jornal Gazeta do Povo, Cristovão Tezza relembra seu tempo de imigrante ilegal na Alemanha. O interessante do texto dele é a consideração sobre a xenofobia no país europeu.
Vendo São Mateus do Sul hoje em dia, em que a cultura polonesa chega a ser exaltada, é fácil pensar que por aqui, não houve preconceito contra os imigrantes. No entanto, basta pensar que os poloneses que pro aqui chegaram encontraram mata fechada. Precisaram derrubar árvores no machado e arar a terra para terem o que comer.
Por outro lado, o termo polaco era tido como pejorativo, daí surgiu o termo "polonês" para que os imigrantes e descendentes não se sentissem discriminados.
Além de tudo isso, temos ainda que refletir: quem é que varre as ruas de nossa sociedade hoje em dia? Há migrantes estaduais discriminados, como há também os que cresceram na segregação e provavelmente irão morrer nela.
Bopm, reproduzo a coluna do Tezza abaixo, que também está disponível no site da Gazeta do Povo, para a qual ele escreve todas as terças.
Imigrantes
Em 1975, fui um trabalhador ilegal em Frankfurt, na Alemanha. Embora proibissem a contratação de estrangeiros sem documentação legal ou autorização oficial para o trabalho, havia uma imensa demanda de mão de obra em atividades não especializadas. Bastava uma mentira piedosa qualquer, prometendo os tais papéis para breve, que o candidato era imediatamente contratado.
O primeiro emprego, no Hospital das Clínicas, foi uma aventura arriscada que deu certo. Sem dinheiro para voltar a Portugal, onde eu estava instalado, fui aceito sem muitas perguntas e logo vi de perto uma outra Alemanha que não tinha nada a ver com os romances de Thomas Mann que eu levava na cabeça. Na verdade, eu passava minhas 12 horas de trabalho sem praticamente ver alemães. O meu chefe era um argelino. Convivia com portugueses, árabes, turcos, espanhóis, iugoslavos. O ambiente de trabalho era quase sempre agradável, e nunca me esqueço das sacolas de marmelada, pão caseiro e garrafas de vinho com que as senhoras portuguesas me presenteavam por ser um “doutor de Coimbra”, quando eu sequer tinha entrado numa sala de aula na universidade fechada por conta da Revolução dos Cravos (o que eu tentava inutilmente explicar). Em toda parte falava-se uma língua que era uma mistura eficaz de sons, gestos e palavras avulsas em várias línguas. No final da semana, eu recebia um envelope com o pagamento em dinheiro vivo – 7 marcos por hora trabalhada, uma grana respeitável para um bicho-grilo daqueles tempos. Nunca precisei assinar um recibo.
Em pouco tempo percebi o abismo que havia entre a sociedade alemã e o mundo dos imigrantes. Eram apenas trabalhadores, não cidadãos – aliás, não eram cidadãos de país nenhum. Muitos estavam lá há mais de 20 anos e não sabiam duas frases de alemão, o que parecia a regra geral dos imigrantes, todos vivendo em guetos – e que já vinham de guetos de sua própria terra, como os camponeses de Portugal. De certa forma, essa foi a regra dos países europeus ricos, que acabaram fazendo do isolamento do estrangeiro pobre uma espécie de “cada um na sua”, segundo a clássica formulação multicultural, que recusa a integração em nome do respeito à diferença. A França é uma exceção, pelo seu esforço político de fazer valer os velhos princípios iluministas de um Estado laico, obrigatórios para todos, de olho assustado na disseminação muçulmana. Mas nada parece dar certo – e o fantasma das antigas “tribos” (expressão usada pelo norueguês fanático que assombrou a tiros e bombas o paraíso nórdico) continua destroçando a utopia de uma nova Europa.
O trabalho imigrante vem varrendo o chão da sociedade do bem-estar europeu há décadas (no meu período em Frankfurt, jamais vi um alemão carregando um balde e uma vassoura), mas agora o sistema ameaça entrar em colapso. Sim, as raízes são todas econômicas, porém o nó verdadeiramente duro de desatar é cultural.
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Entre datas, nomes e subversões |
Cuidado. Atrás daquele balcão de banca de jornal encontra-se um homem subversivo. Quem entra na Banca Nadolny, certamente, não se sente ameaçado por aquele senhor de cabelos brancos e de porte físico que pende mais para o tipo franzino. Ah... mas ele já botou medo em militares e generais.
Nos idos da ditadura militar, Romeu Nadolny trabalhava na Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto (SIX) da Petrobras em São Mateus do Sul. A chefia da SIX naquela época não ficava em São Mateus. Romeu compara a situação daquele tempo com o colonialismo no Brasil. Como colônia de Portugal, as terras brasileiras serviam só para abastecer a coroa portuguesa. Assim, a SIX em São Mateus servia para abastecer a chefia da Petrobras. Tudo para a coroa, nada para a colônia.
Por ser contra, Romeu levou muito mais do que o rótulo de subversivo. Foi demitido, junto com outros companheiros, num processo intitulado de “expurgo” na imprensa da região. Hoje, ele mostra um atestado conseguido num quartel de Curitiba de que nada consta contra ele nos registros.
O atestado de bom cidadão de acordo com a lei hoje está cuidadosamente alocado em uma pasta catálogo, junto com o manifesto escrito por colegas de trabalho traidores e enviado aos superiores que acabou causando o “expurgo”. Romeu é assim. Guarda tudo. Documentos. Fotos. Livros. Datas e nomes. Parece uma biblioteca em carne viva. E do tipo raro: especializada na história de São Mateus do Sul. Nessa biblioteca, há estantes sobre a colonização polonesa, sobre a navegação no Rio Iguaçu, sobre extração da erva mate, sobre a exploração do xisto e sobre as falhas de certas personalidades são-mateuenses.
Aquele senhor atrás do balcão é de fato subversivo. Vai contra os que acham que documentos não têm importância. Que madeiras de construções antigas têm que ser jogadas fora. E, especialmente, contra os que acham que a história da sua terra não tem valor. Quem dedica um pouco do seu tempo a ouvir aquele senhor subversivo, certamente levará muita informação e conhecimento consigo.

