1968: um ano que marcou a história do Brasil e do mundo. Na França, uma greve geral adquiriu proporções revolucionárias, momento que ficou conhecido como “maio de 68”. No Brasil, a revolução sexual e as reivindicações do movimento estudantil contrastavam com a ditadura militar. O ano foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.
Vinte anos depois, o jornalista Zuenir Ventura procura resgatar os acontecimentos desse ano no Brasil – em muitos dos quais o próprio autor esteve envolvido – e levar ao leitor o clima da época. O resultado é o livro-reportagem “1968 – ano que não terminou”, publicado em 1988 pela editora Nova Fronteira.
O começo de tudo se dá no “Réveillon na casa da Helô”, como era conhecida a escritora e crítica literária, Heloísa Buarque de Holanda. Conforme o autor, os rumos tomados pela festa, que reuniu artistas e intelectuais, anunciavam que aquele ano seria movimentado. Como de fato foi.
Ao longo das 314 páginas, o leitor encontra reconstituição de fatos marcantes que se seguiram àquele réveillon. A morte do estudante Edson Luís num confronto com policiais no restaurante Calabouço, o local de concentração dos estudantes. A missa da Candelária em que os 600 participantes foram escoltados pelos padres para que pudessem fugir do cerco e da violência policiais. As barricadas na rua e os confrontos entre os estudantes e policiais no nosso “maio de 68”. A passeata dos Cem Mil, momento de glória do Movimento estudantil. E, o trágico desfecho do ano, o decreto do AI-5, pelo presidente Costa e Silva.
Além de resgatar esses e outros fatos importantes, o livro traz subsídios para compreender a efervescência daquele período, marcado pelo movimento estudantil ativo e corajoso, mas nem tão bem organizado. Foi um período de predominância jovem. Pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança. Em uma entrevista a Jair Stangler, repórter do Último Segundo, Zuenir Ventura analisa: “é curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.”
O autor também foi testemunha de alguns dos principais acontecimentos daquele ano: participou das passeatas e das assembléias, estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís e chegou a ser preso graças ao AI-5.
As manifestações do ponto de vista do autor são comedidas. Pode-se dizer que ele minimizou sua participação nos acontecimentos, mas não se excluiu da narrativa. Quase a totalidade dos relatos contido no livro são frutos de um trabalho profundo de apuração com entrevistas e uma lista vasta de fontes de consulta. Ainda assim, é notável o envolvimento do autor nos fatos e sua identificação com o tema.
“1968 – ao ano que não terminou”, é uma leitura fundamental para conhecer a fundo esse período importante na história do Brasil. Funciona também como um jogo de memória, pois são tantos personagens citados, que chega a ser um desafio lembrar-se de todos eles.
Comparada a outros livros-reportagem a obra deixa um pouco a desejar na questão de estilo. A impressão é de que o autor deu prioridade ao conteúdo em detrimento da forma e de que ele preferiu dedicar-se mais à apuração do que aos recursos literários. O resultado, é que a leitura não flui tão bem, quanto em outros livros do gênero. Ainda assim, o fato não impediu o livro de tornar-se um best-seller.
O segredo do sucesso, além do trabalho de resgate histórico do autor, é o fascínio que o ano de 1968 desperta ainda hoje. A ditadura e o temido AI-5, que perdurou por dez anos, deixaram seus resquícios e ainda provocam temor. No comportamento dos jovens de agora os efeitos são visíveis, a liberdade sexual e a pílula anticoncepcional, tão comuns hoje em dia, são heranças daquela época. No campo das personalidades, muitos artistas e políticos em voga atualmente participaram dos eventos daquele ano lutando de alguma forma contra a ditadura e contra a repressão. Passados mais de quarenta anos, tem-se a certeza do que o título afirma: o ano de 1968 ainda não terminou...
Retrato de uma revolução que não acabou
Marcadores: 1968 , ditadura militar , literatura , movimento estudantil , resenha , Zuenir Ventura
A Sangue Frio - filme de 1967
Drama e loucura de um assassinato
Por Larissa Drabeski
Não é difícil encontrar, no cinema, histórias de assassinatos violentos, protagonizadas por verdadeiros psicopatas. O longa-metragem A Sangue Frio (In Cold Blood) – produzido em 1967 nos Estados Unidos – poderia ser apenas mais um desses casos. Dois rapazes em liberdade condicional assassinam brutalmente os membros da família Clutter – o casal e dois filhos adolescentes – em busca de dinheiro. No entanto, o que diferencia este relato dos demais é que todos os fatos ali são verídicos.
O filme é baseado na obra homônima do jornalista americano Truman Capote. O livro, publicado em 1966, foi uma inovação na literatura. Para reconstruir a história do brutal assassinato da família Clutter, ocorrido no Kansas, em 1959, foi necessário um longo tempo – seis anos – de apuração jornalística. É o que o próprio autor define como “romance de não ficção”. O trabalho de Capote surpreende não só pela quantidade de detalhes, mas pela construção psicológica que traçou dos assassinos.
A adaptação para a telona, dirigida por Richard Brooks, veio um ano após o lançamento do livro. Nos cinemas, o diretor buscou explorar a dimensão psicológica dos assassinos: Perry Smith e Richard 'Dick' Hickock.
Comparar o filme ao livro é sempre complicado. Neste caso, mais ainda pelo fato de o livro ter sido um marco, tornou-se estrondoso sucesso de vendas e crítica. A adaptação surge com a essa responsabilidade de reviver a veracidade dos fatos, minuciosamente construída por Capote. Nesse trabalho, Brooks beneficia-se de uma característica do livro, que é a narrativa construída cena a cena - recurso, inclusive importado do cinema para a literatura. O cineasta acaba respeitando muito da construção do escritor.
Talvez o maior desafio nas filmagens fosse reconstruir os fluxos de consciência descritos no livro. Tarefa nem tão bem sucedida no início do filme, tomando como exemplo, a cena em que Perry, em um banheiro de rodoviária sonha estar em um show em Las Vegas. A falta de conhecimento do telespectador a respeito da personalidade de Perry faz a devaneio ficar um tanto vago.
Os comparsas Dick e Perry tinham personalidades muito distintas e só mesmo o crime para os unir. Dick era o perfeito sociopata, que encarava o crime quase com naturalidade e que não é acometido pelo remorso. O mesmo homem que se comovia com o drama do pai doente, era capaz de tramar mil golpes, sem o menor ressentimento. Sua aproximação com Perry não tinha nada a ver com afeição, era apenas um jogo de interesse. Dick tinha um golpe que considerava perfeito, mas precisava de alguém com a frieza necessária para realizar o serviço sujo, que ele julgara ter encontrado em Perry, ex-companheiro de prisão.
Apesar de ser considerado por Dick um assassino nato, Perry tinha um toque de ingenuidade. No fundo, o pequeno Perry - de tronco musculoso, apoiado sobre pernas pequenas e deformadas – considerava-se um artista injustiçado pela vida. No decorrer da trama, vão sendo revelados alguns de seus traumas, principalmente os que envolvem o relacionamento com o pai - o “lobo solitário”. Perry, responsável pelos disparos mortais na família Clutter, tinha uma personalidade dúbia e instável.
Um fato que chama a atenção no filme é a opção do diretor por fazer as filmagens em preto e branco. Assistindo à película, é fácil perceber suas razões. O assassinato dos Clutter, e a própria vida dos assassinos, não possuem nada de colorido. As imagens em preto e branco contribuem para criar a atmosfera fúnebre e sombria.
O tom de dramaticidade é complementado pela trilha sonora de Quincy Jones, que consegue captar o tom emocional de cada “cena” do livro e reconstruí-lo no vídeo. Jones comenta o significado dessa trilha: "uma das frustrações que tive ao compor música para o cinema foi que nem sempre era possível levar a música à telona. O som ótico não dava conta da música. A gente gravava em fita magnética, e, quando a música era transferida para o som ótico, perdia muito. A música de 'A Sangue Frio' era em tom muito baixo, com violoncelos, contrabaixos e um dos primeiros sintetizadores usados numa trilha sonora. Richard Brooks sabia da minha preocupação, então, juntamente com um engenheiro da RCA, foi ajustar todos os alto-falantes nos 65 primeiros cinemas em que "A Sangue Frio" foi exibido, para que a música soasse certo. Cara, ficou maravilhoso. Eu não conseguia agradecê-lo o bastante."
No decorrer da película, o diretor consegue, aos poucos, passar de um filme policial de qualidade razoável, para um drama angustiante. Quanto mais se aproximam os minutos derradeiros do filme, mais o público tem-se a impressão de realmente conhecer os assassinos.
Um dos pontos altos do drama/policial é a confissão de Perry, que é quando aparecem os detalhes do crime. Nesse ponto, outra vez, o diretor acertou na escolha. Nada de abuso de sangue ou violência explícita. As vítimas aparecem em seus momentos derradeiros, com a expressão de pavor, implorando misericórdia. Cenas que acabam tendo um resultado muito mais chocante.
A partir de então, o filme cresce muito em qualidade. A história passa a contar com a narração do jornalista Mrs Jensen – alterego de Capote – o que eleva a carga emocional. Na cena final, a execução de Perry, mais uma vez a trilha sonora de Quincy Jones dá o tom exato de emoção.
O A Sangue Frio nas telas não chega a ter a mesma genialidade das páginas impressas, mas é um filme que consegue unir os gêneros drama e policial. Além disso, leva a uma reflexão sobre os mistérios da consciência humana. Quão cruel e sangue frio um homem pode ser?
Curitiba, 02 de outubro de 2009.
Marcadores: A Sangue Frio , Capote , cinema , resenha
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1968: um ano que marcou a história do Brasil e do mundo. Na França, uma greve geral adquiriu proporções revolucionárias, momento que ficou conhecido como “maio de 68”. No Brasil, a revolução sexual e as reivindicações do movimento estudantil contrastavam com a ditadura militar. O ano foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.
Vinte anos depois, o jornalista Zuenir Ventura procura resgatar os acontecimentos desse ano no Brasil – em muitos dos quais o próprio autor esteve envolvido – e levar ao leitor o clima da época. O resultado é o livro-reportagem “1968 – ano que não terminou”, publicado em 1988 pela editora Nova Fronteira.
O começo de tudo se dá no “Réveillon na casa da Helô”, como era conhecida a escritora e crítica literária, Heloísa Buarque de Holanda. Conforme o autor, os rumos tomados pela festa, que reuniu artistas e intelectuais, anunciavam que aquele ano seria movimentado. Como de fato foi.
Ao longo das 314 páginas, o leitor encontra reconstituição de fatos marcantes que se seguiram àquele réveillon. A morte do estudante Edson Luís num confronto com policiais no restaurante Calabouço, o local de concentração dos estudantes. A missa da Candelária em que os 600 participantes foram escoltados pelos padres para que pudessem fugir do cerco e da violência policiais. As barricadas na rua e os confrontos entre os estudantes e policiais no nosso “maio de 68”. A passeata dos Cem Mil, momento de glória do Movimento estudantil. E, o trágico desfecho do ano, o decreto do AI-5, pelo presidente Costa e Silva.
Além de resgatar esses e outros fatos importantes, o livro traz subsídios para compreender a efervescência daquele período, marcado pelo movimento estudantil ativo e corajoso, mas nem tão bem organizado. Foi um período de predominância jovem. Pessoas com mais de 30 anos eram vistas com desconfiança. Em uma entrevista a Jair Stangler, repórter do Último Segundo, Zuenir Ventura analisa: “é curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.”
O autor também foi testemunha de alguns dos principais acontecimentos daquele ano: participou das passeatas e das assembléias, estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís e chegou a ser preso graças ao AI-5.
As manifestações do ponto de vista do autor são comedidas. Pode-se dizer que ele minimizou sua participação nos acontecimentos, mas não se excluiu da narrativa. Quase a totalidade dos relatos contido no livro são frutos de um trabalho profundo de apuração com entrevistas e uma lista vasta de fontes de consulta. Ainda assim, é notável o envolvimento do autor nos fatos e sua identificação com o tema.
“1968 – ao ano que não terminou”, é uma leitura fundamental para conhecer a fundo esse período importante na história do Brasil. Funciona também como um jogo de memória, pois são tantos personagens citados, que chega a ser um desafio lembrar-se de todos eles.
Comparada a outros livros-reportagem a obra deixa um pouco a desejar na questão de estilo. A impressão é de que o autor deu prioridade ao conteúdo em detrimento da forma e de que ele preferiu dedicar-se mais à apuração do que aos recursos literários. O resultado, é que a leitura não flui tão bem, quanto em outros livros do gênero. Ainda assim, o fato não impediu o livro de tornar-se um best-seller.
O segredo do sucesso, além do trabalho de resgate histórico do autor, é o fascínio que o ano de 1968 desperta ainda hoje. A ditadura e o temido AI-5, que perdurou por dez anos, deixaram seus resquícios e ainda provocam temor. No comportamento dos jovens de agora os efeitos são visíveis, a liberdade sexual e a pílula anticoncepcional, tão comuns hoje em dia, são heranças daquela época. No campo das personalidades, muitos artistas e políticos em voga atualmente participaram dos eventos daquele ano lutando de alguma forma contra a ditadura e contra a repressão. Passados mais de quarenta anos, tem-se a certeza do que o título afirma: o ano de 1968 ainda não terminou...
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A Sangue Frio - filme de 1967 |
Drama e loucura de um assassinato
Por Larissa Drabeski
Não é difícil encontrar, no cinema, histórias de assassinatos violentos, protagonizadas por verdadeiros psicopatas. O longa-metragem A Sangue Frio (In Cold Blood) – produzido em 1967 nos Estados Unidos – poderia ser apenas mais um desses casos. Dois rapazes em liberdade condicional assassinam brutalmente os membros da família Clutter – o casal e dois filhos adolescentes – em busca de dinheiro. No entanto, o que diferencia este relato dos demais é que todos os fatos ali são verídicos.
O filme é baseado na obra homônima do jornalista americano Truman Capote. O livro, publicado em 1966, foi uma inovação na literatura. Para reconstruir a história do brutal assassinato da família Clutter, ocorrido no Kansas, em 1959, foi necessário um longo tempo – seis anos – de apuração jornalística. É o que o próprio autor define como “romance de não ficção”. O trabalho de Capote surpreende não só pela quantidade de detalhes, mas pela construção psicológica que traçou dos assassinos.
A adaptação para a telona, dirigida por Richard Brooks, veio um ano após o lançamento do livro. Nos cinemas, o diretor buscou explorar a dimensão psicológica dos assassinos: Perry Smith e Richard 'Dick' Hickock.
Comparar o filme ao livro é sempre complicado. Neste caso, mais ainda pelo fato de o livro ter sido um marco, tornou-se estrondoso sucesso de vendas e crítica. A adaptação surge com a essa responsabilidade de reviver a veracidade dos fatos, minuciosamente construída por Capote. Nesse trabalho, Brooks beneficia-se de uma característica do livro, que é a narrativa construída cena a cena - recurso, inclusive importado do cinema para a literatura. O cineasta acaba respeitando muito da construção do escritor.
Talvez o maior desafio nas filmagens fosse reconstruir os fluxos de consciência descritos no livro. Tarefa nem tão bem sucedida no início do filme, tomando como exemplo, a cena em que Perry, em um banheiro de rodoviária sonha estar em um show em Las Vegas. A falta de conhecimento do telespectador a respeito da personalidade de Perry faz a devaneio ficar um tanto vago.
Os comparsas Dick e Perry tinham personalidades muito distintas e só mesmo o crime para os unir. Dick era o perfeito sociopata, que encarava o crime quase com naturalidade e que não é acometido pelo remorso. O mesmo homem que se comovia com o drama do pai doente, era capaz de tramar mil golpes, sem o menor ressentimento. Sua aproximação com Perry não tinha nada a ver com afeição, era apenas um jogo de interesse. Dick tinha um golpe que considerava perfeito, mas precisava de alguém com a frieza necessária para realizar o serviço sujo, que ele julgara ter encontrado em Perry, ex-companheiro de prisão.
Apesar de ser considerado por Dick um assassino nato, Perry tinha um toque de ingenuidade. No fundo, o pequeno Perry - de tronco musculoso, apoiado sobre pernas pequenas e deformadas – considerava-se um artista injustiçado pela vida. No decorrer da trama, vão sendo revelados alguns de seus traumas, principalmente os que envolvem o relacionamento com o pai - o “lobo solitário”. Perry, responsável pelos disparos mortais na família Clutter, tinha uma personalidade dúbia e instável.
Um fato que chama a atenção no filme é a opção do diretor por fazer as filmagens em preto e branco. Assistindo à película, é fácil perceber suas razões. O assassinato dos Clutter, e a própria vida dos assassinos, não possuem nada de colorido. As imagens em preto e branco contribuem para criar a atmosfera fúnebre e sombria.
O tom de dramaticidade é complementado pela trilha sonora de Quincy Jones, que consegue captar o tom emocional de cada “cena” do livro e reconstruí-lo no vídeo. Jones comenta o significado dessa trilha: "uma das frustrações que tive ao compor música para o cinema foi que nem sempre era possível levar a música à telona. O som ótico não dava conta da música. A gente gravava em fita magnética, e, quando a música era transferida para o som ótico, perdia muito. A música de 'A Sangue Frio' era em tom muito baixo, com violoncelos, contrabaixos e um dos primeiros sintetizadores usados numa trilha sonora. Richard Brooks sabia da minha preocupação, então, juntamente com um engenheiro da RCA, foi ajustar todos os alto-falantes nos 65 primeiros cinemas em que "A Sangue Frio" foi exibido, para que a música soasse certo. Cara, ficou maravilhoso. Eu não conseguia agradecê-lo o bastante."
No decorrer da película, o diretor consegue, aos poucos, passar de um filme policial de qualidade razoável, para um drama angustiante. Quanto mais se aproximam os minutos derradeiros do filme, mais o público tem-se a impressão de realmente conhecer os assassinos.
Um dos pontos altos do drama/policial é a confissão de Perry, que é quando aparecem os detalhes do crime. Nesse ponto, outra vez, o diretor acertou na escolha. Nada de abuso de sangue ou violência explícita. As vítimas aparecem em seus momentos derradeiros, com a expressão de pavor, implorando misericórdia. Cenas que acabam tendo um resultado muito mais chocante.
A partir de então, o filme cresce muito em qualidade. A história passa a contar com a narração do jornalista Mrs Jensen – alterego de Capote – o que eleva a carga emocional. Na cena final, a execução de Perry, mais uma vez a trilha sonora de Quincy Jones dá o tom exato de emoção.
O A Sangue Frio nas telas não chega a ter a mesma genialidade das páginas impressas, mas é um filme que consegue unir os gêneros drama e policial. Além disso, leva a uma reflexão sobre os mistérios da consciência humana. Quão cruel e sangue frio um homem pode ser?
Curitiba, 02 de outubro de 2009.
