Imigração e xenofobia

Em sua coluna de hoje no jornal Gazeta do Povo, Cristovão Tezza relembra seu tempo de imigrante ilegal na Alemanha. O interessante do texto dele é a consideração sobre a xenofobia no país europeu.

Vendo São Mateus do Sul hoje em dia, em que a cultura polonesa chega a ser exaltada, é fácil pensar que por aqui, não houve preconceito contra os imigrantes. No entanto, basta pensar que os poloneses que pro aqui chegaram encontraram mata fechada. Precisaram derrubar árvores no machado e arar a terra para terem o que comer.

Por outro lado, o termo polaco era tido como pejorativo, daí surgiu o termo "polonês" para que os imigrantes e descendentes não se sentissem discriminados.

Além de tudo isso, temos ainda que refletir: quem é que varre as ruas de nossa sociedade hoje em dia? Há migrantes estaduais discriminados, como há também os que cresceram na segregação e provavelmente irão morrer nela.

Bopm, reproduzo a coluna do Tezza abaixo, que também está disponível no site da Gazeta do Povo, para a qual ele escreve todas as terças.


Imigrantes

Em 1975, fui um trabalhador ilegal em Frankfurt, na Alemanha. Embora proibissem a contratação de estrangeiros sem documentação legal ou autorização oficial para o trabalho, havia uma imensa demanda de mão de obra em atividades não especializadas. Bastava uma mentira piedosa qualquer, prometendo os tais papéis para breve, que o candidato era imediatamente contratado.

O primeiro emprego, no Hospital das Clínicas, foi uma aventura arriscada que deu certo. Sem dinheiro para voltar a Portugal, onde eu estava instalado, fui aceito sem muitas perguntas e logo vi de perto uma outra Alemanha que não tinha nada a ver com os romances de Thomas Mann que eu levava na cabeça. Na verdade, eu passava minhas 12 horas de trabalho sem praticamente ver alemães. O meu chefe era um argelino. Convivia com portugueses, árabes, turcos, espanhóis, iugoslavos. O ambiente de trabalho era quase sempre agradável, e nunca me esqueço das sacolas de marmelada, pão caseiro e garrafas de vinho com que as senhoras portuguesas me presenteavam por ser um “doutor de Coimbra”, quando eu sequer tinha entrado numa sala de aula na universidade fechada por conta da Revolução dos Cravos (o que eu tentava inutilmente explicar). Em toda parte falava-se uma língua que era uma mistura eficaz de sons, gestos e palavras avulsas em várias línguas. No final da semana, eu recebia um envelope com o pagamento em dinheiro vivo – 7 marcos por hora trabalhada, uma grana respeitável para um bicho-grilo daqueles tempos. Nunca precisei assinar um recibo.

Em pouco tempo percebi o abismo que havia entre a sociedade alemã e o mundo dos imigrantes. Eram apenas trabalhadores, não cidadãos – aliás, não eram cidadãos de país nenhum. Muitos estavam lá há mais de 20 anos e não sabiam duas frases de alemão, o que parecia a regra geral dos imigrantes, todos vivendo em guetos – e que já vinham de guetos de sua própria terra, como os camponeses de Portugal. De certa forma, essa foi a regra dos países europeus ricos, que acabaram fazendo do isolamento do estrangeiro pobre uma espécie de “cada um na sua”, segundo a clássica formulação multicultural, que recusa a integração em nome do respeito à diferença. A França é uma exceção, pelo seu esforço político de fazer valer os velhos princípios iluministas de um Estado laico, obrigatórios para todos, de olho assustado na disseminação muçulmana. Mas nada parece dar certo – e o fantasma das antigas “tribos” (expressão usada pelo norueguês fanático que assombrou a tiros e bombas o paraíso nórdico) continua destroçando a utopia de uma nova Europa.

O trabalho imigrante vem varrendo o chão da sociedade do bem-estar europeu há décadas (no meu período em Frankfurt, jamais vi um alemão carregando um balde e uma vassoura), mas agora o sistema ameaça entrar em colapso. Sim, as raízes são todas econômicas, porém o nó verdadeiramente duro de desatar é cultural.

Entre datas, nomes e subversões

Cuidado. Atrás daquele balcão de banca de jornal encontra-se um homem subversivo. Quem entra na Banca Nadolny, certamente, não se sente ameaçado por aquele senhor de cabelos brancos e de porte físico que pende mais para o tipo franzino. Ah... mas ele já botou medo em militares e generais.

Nos idos da ditadura militar, Romeu Nadolny trabalhava na Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto (SIX) da Petrobras em São Mateus do Sul. A chefia da SIX naquela época não ficava em São Mateus. Romeu compara a situação daquele tempo com o colonialismo no Brasil. Como colônia de Portugal, as terras brasileiras serviam só para abastecer a coroa portuguesa. Assim, a SIX em São Mateus servia para abastecer a chefia da Petrobras. Tudo para a coroa, nada para a colônia.

Por ser contra, Romeu levou muito mais do que o rótulo de subversivo. Foi demitido, junto com outros companheiros, num processo intitulado de “expurgo” na imprensa da região. Hoje, ele mostra um atestado conseguido num quartel de Curitiba de que nada consta contra ele nos registros.

O atestado de bom cidadão de acordo com a lei hoje está cuidadosamente alocado em uma pasta catálogo, junto com o manifesto escrito por colegas de trabalho traidores e enviado aos superiores que acabou causando o “expurgo”. Romeu é assim. Guarda tudo. Documentos. Fotos. Livros. Datas e nomes. Parece uma biblioteca em carne viva. E do tipo raro: especializada na história de São Mateus do Sul. Nessa biblioteca, há estantes sobre a colonização polonesa, sobre a navegação no Rio Iguaçu, sobre extração da erva mate, sobre a exploração do xisto e sobre as falhas de certas personalidades são-mateuenses.

Aquele senhor atrás do balcão é de fato subversivo. Vai contra os que acham que documentos não têm importância. Que madeiras de construções antigas têm que ser jogadas fora. E, especialmente, contra os que acham que a história da sua terra não tem valor. Quem dedica um pouco do seu tempo a ouvir aquele senhor subversivo, certamente levará muita informação e conhecimento consigo.

O inferno de Auschwitz

“Aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo”: a frase, de autoria de George Santayna, está colocada em um dos primeiros barracões do Campo de Concentração de Auschwitz e justifica a transformação do local em museu e memorial. Por Auschwitz passaram milhões de pessoas (não há certeza sobre esses dados) e poucos milhares sobreviveram. A maioria era de judeus, mas por ali passaram – e sofreram nas mãos dos nazistas – pessoas provenientes de quase todos os países da Europa, inclusive da Alemanha. O campo impressiona pelo tamanho e pela aura de morte que conserva. Até o cheiro parece diferente.



Inicialmente, o campo tinha a função de repreender a população da polonesa. O primeiro transporte de passageiros aconteceu em 14 de junho de 1940, trazendo prisioneiros políticos poloneses. A entrada por onde se inicia a visita atualmente é a mesma por onde chegavam essas pessoas. Na entrada, viam a inscrição “Arbeit macht frei”, ou seja, o trabalho liberta. Eram recebidos por uma orquestra tocando música alemã, sem saber que se encaminhavam para a morte. Para os que já estavam aprisionados, a música alemã servia como tortura psicológica. A função se modificou quando Hitler adotou o que ele chamou de solução final: exterminar os judeus.

Em Auschwitz, cidade polonesa localizada a poucos quilômetros de Cracóvia, os alemães instalaram dois campos de concentração. No campo de Auschwitz I os visitantes podem circular pelos diferentes prédios, caminhar pelo chão e pelas escadas já gastas, conhecendo um pouco do que os prisioneiros passaram naquele local.

Um dos barracões é destinado para as provas materiais dos crimes cometidos. Ali, estão reunidos os pertences pessoais que eram retirados dos prisioneiros na sua chegada. São montanhas de sapatos. Centenas de óculos. Uma imensidão de panelas e outros pertences pessoais. Há também um grande número de malas com os nomes dos prisioneiros e a data de nascimento, porque, ao chegar a Auschwitz, os soldados alemães pediam que identificassem suas malas para pegá-las quando fossem embora, o que nunca ocorria. Quando as pessoas eram encaminhadas para o extermínio nas câmaras de gás, também costumavam receber toalhas, pensando que iriam para o banho. Diziam que deviam lembrar de onde deixaram suas roupas para pegá-las quando saíssem do banho. Depois que os corpos eram retirados das câmaras de gás, os cabelos das mulheres eram cortados e vendidos para a fabricação de tapetes ou de casacos. Encontram-se exposto uma infinidade de cabelos que foram cortados, bem como um tapete fabricado com cabelo humano. Estudos comprovaram que aquela fabricação continha 30% de cabelo e que possuía resíduos do gás utilizado para assassiná-los. Quando o campo foi invadido e libertado pelos soviéticos em 1945, foram encontrados sete mil quilos de cabelo já empacotado para ser vendido à fábrica que fazia os tapetes.




Além dos alojamentos, nos quais estavam pessoas submetidas a trabalhos escravos e alimentação racionada que levava muitos a morte, havia ainda uma prisão, para onde eram levados por mau comportamento. Ali, muitos eram fuzilados ou torturados. Uma das torturas mais cruéis era a cela para fica em pé. Em um espaço de aproximadamente um metro quadrado eram colocados quatro prisioneiros, que não tinha como sentar-se ou deitar-se. A única ventilação vinha de uma janela minúscula (se é que se pode chamar de janela) que não deve ter mais de 10 centímetros quadrados. O ar insuficiente fazia a maioria dos condenados a essa pena a morrer asfixiados.

Mais adiante, pode-se visitar as câmaras de gás, nas quais era utilizada uma pedra chamada de Ciclone B, que a altas temperaturas se converte em gás tóxico. As câmaras tinham capacidade para 900 pessoas. O processo durava de 5 a 10 minutos. O primeiro experimento com Ciclone foi realizado em setembro de 1941, matando 600 russos e 250 polacos. Depois de retirados das câmaras, os corpos eram incinerados. Hoje também se pode conhecer o incinerador. Ao ver os locais onde tantos horrores aconteceram, muita gente deixa transparecer a emoção em choro compulsivo.

Embora já pareçam horríveis para os visitantes, as condições desse primeiro campo não eram nem comparáveis às do campo de Auschwitz II ou Birkenau, onde as condições eram ainda mais subumanas. Esse era o local ainda mais mortal. A ferrovia atravessava o portal de entrada do campo e chegava até um local aberto no qual os prisioneiros passavam por uma separação. Aquela praça já ficava perto dos locais de extermínio para facilitar o trabalho. São 140 hectares que foram dedicados à morte. Quando se está do lado de dentro desse enorme cemitério, é bom olhar para o outro lado e saber que poderá sair livremente e ileso daquilo que foi um inferno sobre a terra.

A cidade das cem pontes

Wroclaw é a terceira maior cidade da Polônia, com aproximadamente 650 mil habitantes. Esta localizada na Silésia, região de muitas riquezas minerais, historicamente dividida entre Polônia, República Checa e a Alemanha.

A cidade foi fundada no século X por um príncipe tcheco. Desde então, foi governada por polacos, tchecos e austríacos, além de sofrer em dois momentos o domínio germânico. No fim do século XVIII, quando a Polônia deixou de existir como país, essa região foi dominada pela Prússia. Mais tarde, na II Guerra Mundial, foi invadida pela Alemanha.

Durante a guerra, os habitantes locais foram expulsos, a maioria levados a campos de concentração ou de trabalhos forçados. Assim, apenas os soldados alemães permaneceram em Wroclaw e ali ofereceram uma dura resistência às potências aliadas. Com isso, 60% da cidade foi destruída. Um dos edifícios mais devastados foi o da Catedral, onde a destruição chegou a 70%.

Ao fim da Guerra, o território voltou a pertencer à Polônia. Infelizmente, não havia muitos de seus habitantes nativos para repovoar a cidade. Assim, vieram para Wroclaw os polacos expulsos de territórios ao leste, que foram perdidos pela Polônia depois da Guerra.

Hoje há um esforço do governo local para devolver a posse de prédios desapropriados durante o regime comunista. Infelizmente, nem sempre se encontram as pessoas que têm direito às edificações e vários prédios permanecem sob posse da prefeitura.

Mas nem só de histórias de guerra sobrevive a cidade. Por alguns é considerada a Veneza da Polônia. Isso se deve ao rio Odra que banha a cidade e se divide em vários canais. Por isso, Wroclaw possui mais de cem pontes. Uma delas é conhecida como “Ponte do Amor” e, nos últimos anos, surgiu um costume interessante: casais enamorados levam um cadeado com os seus nomes, fecham-no na ponte e jogam a chave no Rio Odra. Assim, simbolizam a eternidade de seu amor.

Cadeados na ponta sobre um dos canais do Rio Odra


A cidade possui também 12 ilhas, das quais cinco estão na região central, e mais de cem pontes. Uma dessas ilhas é chamada de ‘O Vaticano da Polônia’ porque, além de abrigar várias Igrejas, é onde se concentra o poder regional da igreja católica.

Wroclaw se destaca no campo do conhecimento. Nessa cidade, Nicolau Copérnico viveu durante oito anos. Oito também é o número de ganhadores do Prêmio Nobel que estudaram na Universidade de Wroclaw, uma das mais importantes do país.

Esta cidade é um importante destino turístico da Polônia. No centro, os turistas podem observar a segunda maior praça polaca, que mede aproximadamente quatro hectares, ficando, em tamanho, atrás apenas da praça de Cracóvia. Além de uma das maiores, é certamente uma das mais belas.



Um prédio localizado nesta praça chama a atenção de quem passa por sua beleza e riqueza de detalhes, é o prédio da antiga Câmara Municipal, onde atualmente funciona um museu. Construído no século XIII e reconstruído nos séculos XIV, XV e XVI, o edifício traz uma mistura de elementos góticos e renascentistas. É o prédio gótico civil mais importante da Europa.

Nos porões da antiga Câmara Municipal está localizada uma das mais antigas cervejarias do mundo, que surgiu no mesmo período que a cervejaria de Praga, na república Tcheca.

Prédio antigo da Câmara Municipal, localizado na Praça Central


A poucos metros da praça central, também é possível saborear um virado paulista ou qualquer outro prato típico brasileiro. É uma boa pedida para quem, em poucos dias fora do seu país, sente aquela saudade imensa do simples feijão com arroz.

Um encontro com Poznan

No fim do século XVIII, a Polônia deixou de existir como país e seu território foi dividido entre Rússia, Prússia e Áustria. O povo polonês sofreu muito sob domínio dos opressores e, por isso, são dessa época os maiores fluxos de imigração polonesa para o Brasil. A ocupação também influenciou culturalmente os poloneses que permaneceram no país. Embora seja um país pequeno, quase do tamanho do estado do Paraná, as diferenças entre os povos de cada região são bem visíveis. São patriotas, mas tendem sempre a exaltar sua região em detrimento das demais.

Durante os 123 anos de dominação estrangeira, a sede do domínio prussiano encontrava-se em Poznan, às margens do Rio Warta. Naquela época os prussianos determinaram que somente três anos de estudo seriam suficientes para as crianças polonesas. Mais de cem anos depois, a cidade reverteu a situação e hoje tem características de cidade universitária. Dos seus 550 mil habitantes, 120 mil são estudantes. Há oito universidades públicas e quase 20 particulares. A mais antiga das universidades leva o nome do poeta polonês Adam Mickiewicz.

Prédio histórico da Universidade Adam Mickiewicz, onde hoje funciona a sede administrativa e o curso de Direito.

Os habitantes se definem como batalhadores e a isso atribuem o franco desenvolvimento da cidade. Hoje, essa é uma das regiões mais ricas da Polônia, com índice de desemprego de 3%. A cidade também tem uma população flutuante, pois muitas pessoas trabalham em Poznan e moram nos arredores. Somada com as cidades adjacentes, a população sobe para 900 mil habitantes.

A religião é também marcante na Polônia, por isso, não há como contar sua história sem falar das igrejas. Em Poznan a Igreja mais antiga é a Catedral, construída na metade do século X. O edifício passou por várias reconstruções e a forma como vemos agora data de 1983. A Catedral é de fato imponente: teto muito alto com pequenas janelas localizadas no topo, colunas de sustentação muito grossas, tudo fazendo alusão ao poder da Igreja Católica.


Outra Igreja digna de nota é a dos Jesuítas, que lembra um pouco o estilo de igrejas de Ouro Preto. Nessas construções o poder é demonstrado muito mais pela riqueza do que pela imponência. Muitos detalhes de ouro marcam esse estilo arquitetônico. Mas na Igreja dos Jesuítas de Poznan, nem tudo é o que parece. Na época de sua construção, a ordem não gozava de tanto dinheiro, por isso tiveram que fazer economias. Assim, ouro maciço só é encontrado no pequeno altar, todos os demais detalhes dourados que refletem em nossos olhos, não passam de pinturas. As paredes são apenas pinturas que imitam o mármore e não a pedra verdadeira. Tampouco existe a cúpula avistada no teto por quem adentra a Igreja, trata-se apenas de ilusão de ótica criada pela pintura. O que, no entanto, não diminui a beleza e a riqueza da construção.
Pintura que imita cúpula na Igreja dos Jesuítas

Mas, sem dúvida, o prédio mais imponente é o da Câmara Municipal, que fica no coração da cidade. Muito destruído na II Guerra Mundial, foi reconstruído em 1955. Já na fachada está a vista muito da história nacional, como a inscrição SAR, que representa o último rei polonês, Stanisław August Poniatowski.

Prédio da Câmara Municipal de Poznan


Segundo lendas locais, o prédio também foi palco de um espetáculo que virou símbolo da cidade: a luta entre duas cabras. Não há consenso na explicação para esse símbolo curioso. Uma história conta que as cabras lutavam em frente à Câmara e as pessoas pararam para assistir aquele ato gracioso e ficaram tão encantadas que queriam tê-las como símbolo. Outra, conta que o dono de duas cabras fugitivas subiu para procurá-las no alto da torre do prédio e pode avistar um incêndio que se principiava. Assim, o pode avisar aos demais habitantes e salvar a cidade a tempo. Independente da veracidade dessas histórias, as cabras estão sempre presentes em Poznan.

Circundando o prédio da câmara está a praça central. Nessas redondezas é possível encontrar muitas “kawiarnias”, ou cafeterias, onde é possível saborear uma sobremesa polaca e tomar uma cerveja. Lugares ideais para descansar da caminhada e refletir sobre a história dessa região.
Cerveza Zywiec e sobremesa de malina, uma framboesa polaca. Recomendo!

A Polônia não pereceu...

Na década de 1990 – o ano eu não me recordo – meu pai foi à Polônia pela primeira vez. Na ocasião, minha bisavó, que é filha de imigrantes poloneses, pediu que meu pai lhe trouxesse um vidrinho com terra da Polônia. Era a maneira de ela conhecer o solo da pátria de seus pais, para onde eles sonhavam voltar um dia. Infelizmente, assim como tantos outros colonos, não puderam realizar esse sonho.

Há dois dias pisei em terras polonesas pela primeira vez. É como se eu estivesse realizando um pouco daquilo que eles sonhavam. Mas a Polônia é muito mais do que a terra de nossos avôs ou bisavôs.

Com a história marcada por guerras e invasões, há edifícios que remontam a uma época sombria para os polacos, mas essas são minorias. Em geral a Polônia é um país moderno, que foi quase na totalidade reconstruído após a II Guerra Mundial. O domínio comunista a que os poloneses estavam submetidos na época da reconstrução se evidencia no estilo das cidades, especialmente na vias largas que evidenciavam o poder do partido comunista.

O povo polonês que um dia teve que abandonar seu país em busca de melhores condições de vida, hoje deve se orgulhar pelo desenvolvimento do país. Mesmo assim, os polacos não deixaram de preservar sua história. Símbolos marcantes do sofrimento do povo são mantidos, talvez para que as novas gerações conheçam e saibam admirar a história da Polônia. História essa que pretendo aprender e compartilhar nos próximos dias. Quase jornalista que sou, carrego sempre comigo o bloco, a caneta e a câmera fotográfica. Espero que minhas anotações rendam bons textos.

Do zobaczenia
*Até logo

O contraste de estilos arquitetônicos. O prédio da frente é um moderno shopping de Varsóvia, capital da Polônia. Ao fundo, vê-se o prédio mal visto pelos polacos por ser um símbolo do domínio comunista.

O espaço polonês nas rádios

O salão de uma sociedade. Um galpão. Ou até dentro de casa. Nas primeiras décadas do século XX, todo lugar estava apto a receber um baile dos imigrantes poloneses. No entardecer do domingo, os colonos se reuniam para a diversão, ao som do violino, rabecão, viola, clarineta e do bumbo. Os músicos eram, geralmente, agricultores, que aprenderam a tocar músicas polonesas com os pais ou avós.

A animação dos imigrantes e o gosto pela música perpassou gerações e transcendeu o espaço dos salões. Inspirados nesses músicos, em 14 de agosto de 1983, surge, na Rádio Difusora do Xisto, o primeiro programa polonês, chamado “Godyna Polska” (hora polonesa), criado por João Janowski, Edison Carlos Schramm, Francisco Caminski e Henrique Janowski.

Dez anos depois, a Braspol, núcleo de São Mateus do Sul, também se engajou na preservação da música polonesa. No dia 8 de abril de 1993, surge o programa polonês “Tradycje Polskie”, levando além da música, informações de interesse da colônia polonesa de São Mateus e região.

Há quase duas décadas no ar, o programa conquista uma boa audiência, misturando as músicas tradicionais a novas canções polonesas. Prova de que tradição de modernidade podem, sim, conviver lado a lado.

Na colônia não tem carnaval

É tempo de folia. O país parece girar em torno do carnaval. Mas, alheias a toda a movimentação carnavalesca, algumas pessoas vêem em nada mudar a sua rotina. Numa casa de madeira na Colônia Cachoeira, Seu Pedro irá passar os dias de folia com o mesmo marasmo que tem sido seu companheiro fiel.

Quando jovem, ele até se aventurava nas folias de carnaval em São Mateus, já que nas colônias eram dadas só aos bailes polacos, nada de samba ou de marchinhas. Mas, nos dias de hoje, sua ocupação é tomar chimarrão com o único filho que ainda mora com ele. Preocupa-se com a pressão arterial que os remédios não conseguem controlar totalmente. Incomoda-se com os mosquitos que invadem a casa no verão. E aguarda alguma visita, que nem sempre chega. Sabe como é, todos tem muito trabalho a fazer. Os filhos aparecem, sim, mas Seu Pedro entrega: “é mais quando precisam de alguma coisa”.

Um dia desses Estevão estava por lá, de carroça. Fora devolver um ventilador de limpar feijão que havia emprestado do pai.

- Ventilador?, pergunto, deixando claro que nunca plantei ou colhi feijão.

- É, ventilador, deixa o feijão bem limpinho. Quer ver? Fui eu que construí, responde Seu Pedro, já se encaminhando para o paiol ao lado da casa.


Diante do instrumento, Seu Pedro demonstra facilidade em manuseá-lo. Girando a manivela, parece que um pouco de sua juventude volta à tona. Além do ventilador, o paiol deve lhe trazer muitas recordações.

O que agora é depósito de ferramentas, já foi a casa dos pais de Seu Pedro. A madeira é daquelas boas, que já não se encontra facilmente: pinheiro e imbuia. Tábuas e vigas foram feitas a muque, como se diz na colônia, pois, na falta de serraria por perto, os colonos usavam serras manuais e o esforço braçal. Depois da morte dos pais, o filho que cuidou deles até o fim tratou de reaproveitar o material da casa.

Agora, o homem trabalhador, que construiu o ventilador de feijão, já deu lugar ao idoso resignado ao tempo. Ainda assim, não resisto a uma brincadeira:

- E esse ano, não vai pular carnaval, Seu Pedro?
- Pois quem sabe vou, né?
- Tá certo, pede pra um dos filhos te levar...
- Ah, isso dá pra ir até a pé!

E entrega-se à risada, mostrando a sua alegria cativante. E, na saída, não deixa de fazer uma piadinha com esta humilde repórter:

- Vai conseguir tirar o carro daí, ou vou ter que ir tirar para você?

Consigo tirar o carro sem fazer feio e vou-me embora. Feliz pelo reencontro, mas, ao mesmo tempo, triste, por deixar para trás aquele senhor sorridente, mas solitário.

Uma caixa de velhas lembranças

A um baú, em que se guardam pequenos tesouros, a memória humana se assemelha. A alguns, basta abrir esse baú e deixar que as memórias vazem e alcancem os ouvintes mais próximos. Para outros, é necessário vasculhar as lembranças e encontrar uma forma de conservar as mais preciosas.

Tadeu Przyvitowski tem 72 anos e é neto de imigrantes poloneses. Em sua memória, ele guarda muitas recordações da sua infância, das histórias que seu avô Vicente contava, bem como das músicas e orações em polonês que aprendeu desde pequeno.

Com a voz rouca de quem é capaz de dar cabo de cinco cigarros em pouco mais de duas horas, ele narra suas histórias. São recordações de um tempo diferente, de uma vida dura, mas que deixa saudades. De quando a Colônia Iguaçu, em que hoje ele mora com a esposa e com a filha, tinha umas poucas casas. Quando a única Igreja existente era a Matriz de São Mateus e os colonos andavam quilômetros a pé ou de carroça até a missa. Bicicleta era artigo de luxo.

Naquele tempo, o respeito dos filhos para com o pai era diferente. Nos finais de semana, ou nos fins de tarde, era muito comum as famílias se visitarem. Nessas ocasiões, os mais velhos se reuniam dentro da casa para conversar, enquanto a piazada ia para uma cozinha que ficava para fora da casa, para não escutar a conversa alheia.

O polonês era a língua utilizada por esses colonos, mas que foi se perdendo com o tempo. Hoje, dos três filhos de Seu Tadeu, só Ana, que ainda mora com os pais, conversa em polonês. Já os netos, sequer aprenderam a língua dos antepassados.

Sentado em uma cadeira de balanço na varanda de casa, seus pequenos olhos azuis deixam transparecer o desejo que a cultura popular trazida pelos imigrantes da Polônia não se perca. Acostumado a cantar e a rezar em polonês nas celebrações da capela de sua Colônia ele decidiu fazer algo mais.

Há algum tempo deu início ao empreendimento de gravar o que aprendeu com o avô em fitas cassetes. Até agora são quatro fitas completas com músicas e orações. O próximo passo é encontrar ajuda para digitalizar e organizar o conteúdo. Assim, ele vai deixando seu baú de memórias em ordem, pronto para compartilhar com quem se interesse.

Pedro Aracheski

“Se eu levantar as mãos para o céu, caio de costa no chão!”. Aos 91 anos, a saúde de Pedro Aracheski dá sinais de cansaço. Quando mais novo, só precisou visitar o médico uma única vez, por conta de uma sinusite. Hoje, a tontura e a pressão alta inspiram cuidados e medicação contínua, além de impedir a atividade a que Pedro mais se dedicou: o trabalho pesado.

“Dantes tempo não tinha essas modernagem, era tudo feito a muque, a força. Agora, vem uma máquina e em 15 ou 20 minutos, faz por 30 homens”. Palavras de um homem que aos 12 anos começou a trabalhar com arado, ajudando na lavoura do pai. Sendo o penúltimo dos doze filhos, coube a ele ficar ajudando o pai no serviço, que não era pouca coisa. Quando era época de carpir no meio da plantação, ele contava com a ajuda das filhas dos vizinhos, com as quais tinha amizade.

A abertura da estrada que passa pelo lugar conhecido como Serra dos Carrilho também contou com suas mãos, derrubando pinheiros a machado durante seis meses. O trabalho rendia quatro mil réis por dia, que, segundo Pedro, era um bom dinheiro. Outros onze anos de sua vida foram empregados no feitio de erva no barbaquá dos Toporowicz, mas esse serviço já não era tão rentável.

Pedro casou aos 27 anos, com uma mulher de 17. Achava que era muito velho para a união com a moça, “mas ela queria...”, conta ele. O casamento aconteceu na Igreja de São Mateus e a festa na casa dos pais da noiva, no Rio das Pedras. O trajeto da casa até a Igreja foi feito de carroça, debaixo de chuva “chegamos feito uns pinto molhado”, se diverte ele.

Se ele não dependeu de médico durante a maior parte da vida, sua esposa teve destino diferente. Ela faleceu há 23 anos, no dia 04 de agosto, vítima de câncer. O tratamento exigiu investimentos financeiros e trouxe sofrimento para o esposo. Sem a mulher, ele não quis continuar vivendo na localidade do Rio das Pedras, aonde tinha ido morar após o casamento. Comprou um terreno e voltou para a Colônia Cachoeira, onde morara com seus pais.

No cômodo da frente da casa de madeira, que ele mesmo construiu para a esposa e remontou na nova localização, as paredes de um rosa forte abrigam muitos quadros de santos e vários porta-retratos. São imagens do casamento dos filhos e filhas, além de flagrantes da juventude.

O senhor dono de olhos azuis reluzentes diz que já viu lobisomem e outras visagens, mas nunca teve medo. Conta também que sua madrinha deixou um ouro enterrado pra ele e, depois de morta, apareceu para avisá-lo. Mas nunca foi atrás do tesouro: “dizem que quem pega esses ouro enterrado vive só mais uns poucos dias”. Abrir mão da sinistra herança parece ter lhe concedido a oportunidade de viver muitos mais do que a maioria dos seus companheiros de juventude e de conviver com a família grande, com 8 filhos, 34 netos e 13 bisnetos. Assim, Pedro passa seus dias. Sem poder fazer muita coisa, contenta-se em contar suas histórias para quem vai visitá-lo.

Risos para espantar a velhice

Na casa de madeira de paredes verdes, a janela veneziana está fechada, embora a noite ainda não tenha caído. Clap, clap, clap, no portão e a porta logo se abre. De dentro surge uma mulher, é Barbara, seguida de perto pelo pai.

- Boa tarde, Seu Mariano, tudo bom?, pergunto

- Bom igual palanque no banhado, responde aos risos, deixando à mostra um dente solitário.

Mariano Wenglarek nasceu no dia 08 de janeiro de “mil novecentos e dezaoito”. Mora com a mulher, Ângela, nascida em 1922. A casa fica perto da Igreja da Anta Ruiva. Para ir às celebrações dominicais, basta atravessar a estrada, muito menos do que caminhava na juventude, até a Igreja Matriz de São Mateus. Hoje, ele estima que gastavam em torno de uma hora e meia no trajeto.

- Eu casei veio. Não casei cedo porque gostava dos bailes, conta o risonho Mariano.
Ele tinha 25 anos e ela tinha 22.

- Conheci ela andando pela estrada, até que um dia cheguei na casa dela e deu ponto. Daí chega uma hora que tinha que casar, era muita caminhada ir todo domingo tomar chimarrão, tinha que trazer pra casa pra tomar chimarrão.

A festa aconteceu numa quarta-feira. De manhã, foram à Igreja, beijar o padre, como diz Seu Mariano. Como era costume na época, a festança aconteceu na casa dos pais da noiva. Tinha dança e grito, acompanhados do som do rabecão, do bumbo e do violino.

- Era bonita a minha menina, agora ta feia. Tamo os 2 feio, brinca.

Aos 92 anos, Mariano não deixa de fazer o serviço a que sempre foi acostumado. Ele mesmo se encarrega de manter a frente da casa roçada e explica que não está velho:
- Usado, porque velho é trapo. Essa gente antiga morreu tudo, só eu não quero morrer. Só eu fiquei pra sopa.

O casal teve no total sete filhos, mas os únicos dois homens já faleceram. As filhas Sofia, Barbara, Madalena, Teresa e Gina se revezam para cuidar do casal. Sofia é desconfiada e não dá trela a desconhecidos:

- Posso gravar nossa conversa?, pergunto.

- Acho melhor não, diz receosa.

Quer saber o porquê do trabalho, se é mesmo necessário. De onde eu sou, onde moro e a que família pertenço. Mas, não deixa de ser educada:

- Me desculpe de estar fazendo tanta pergunta, é que a gente tem medo. O pessoal sempre avisa na rádio que tem que ter cuidado... A senhora aceita um copo de suco?
Na despedida, seu Mariano não para de contar suas histórias:

- É que eu sempre fui papudo e cada vez pior. Temo que brincar, a tristeza só mata a gente.

Dona Ângela, que já não escuta muito bem e entende melhor o polonês, fica quieta, sentada por perto durante toda a conversa. Só me diz na saída:

- Que Deus te acompanhe.

Impressões de uma quase jornalista

Para ser um bom jornalista é preciso curiosidade, sensibilidade, perspicácia e precisão. Tem que saber perguntar e saber ouvir. Mais do que um bom texto, é preciso ter cultura ampla. Essas características sempre em disseram que são fundamentais para um bom repórter. Mas antes mesmo de julgar que as desenvolvo bem, descobri uma série de fatores que são fundamentais.

Em busca de boas histórias realmente é preciso sujar o sapato. E o carro também, rodando por estradas do interior logo após uma chuva de verão. Sempre atento para não atropelar a galinha que atravessa a estrada com a sua ninhada. Nessas andanças, o senso de localização é essencial para encontrar a casa do Fulano, seguindo indicações não muito precisas:

- Perto da Igreja da Anta Ruiva, depois da subida.

O que facilita o trabalho é saber reconhecer a casa de um polaco: a madeira pintada com cores vivas, muitas vezes com lambrequins no beiral. Em torno da casa crescem flores das mais variadas espécies.

Localizada a casa certa, vem outro desafio: contornar o ar de desconfiado do polaco. Quando um jovem desconhecido bate no portão da sua casa, pedindo que lhe contem as histórias de sua vida, a expressão de estranhamento é sempre a mesma. Explicar que se trata de um trabalho para a faculdade geralmente é muito pouco para pessoas que por poço tempo freqüentaram a escola. Nesses casos, como se trata de uma cidade pequena, falar o sobrenome sempre ajuda na identificação.

Vencidas as barreiras iniciais, as conversas costumam ser agradáveis. Pessoas com mais de 90 anos, estão sempre dispostas a contar histórias de suas vidas, basta alguém com boa vontade para ouvi-las.

E assim, eu vou unindo duas coisas que me apaixonam: o jornalismo e a história da colonização polonesa na minha cidade natal, São Mateus do Sul. A partir de hoje, me proponho a postar aqui todas as minhas percepções e as histórias interessantes que encontro no desenvolvimento do projeto experimental com o qual pretendo, através do perfil de idosos, filhos de imigrantes poloneses, resgatar a história da colonização. Sinceramente, não espero que alguém, além de mim mesma, leia, mas se você está lendo, tem meu agradecimento.

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Imigração e xenofobia

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Entre datas, nomes e subversões

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O inferno de Auschwitz

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A cidade das cem pontes

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Um encontro com Poznan

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A Polônia não pereceu...

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O espaço polonês nas rádios

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Na colônia não tem carnaval

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Uma caixa de velhas lembranças

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Pedro Aracheski

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Risos para espantar a velhice

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Impressões de uma quase jornalista

Sobre este blog

Se tenho um blog e tenho um trabalho de faculdade a fazer, porque não compartilhar essas histórias? Decidi escrever aqui sobre as pessoas que encontro durante a realização do projeto experimental para conclusão do curso de Jornalismo na UFSM. Espero que a leitura desses erelatos seja um prazer.

Quem sou eu

Brazil
Estudante de jornalismo. Uma polaca paranaense perdida nas terras gaúchas, mas que não esqeceu suas origens, pois, como disse Paulo Leminski, "pinheiro não se transplanta".

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