Risos para espantar a velhice

Na casa de madeira de paredes verdes, a janela veneziana está fechada, embora a noite ainda não tenha caído. Clap, clap, clap, no portão e a porta logo se abre. De dentro surge uma mulher, é Barbara, seguida de perto pelo pai.

- Boa tarde, Seu Mariano, tudo bom?, pergunto

- Bom igual palanque no banhado, responde aos risos, deixando à mostra um dente solitário.

Mariano Wenglarek nasceu no dia 08 de janeiro de “mil novecentos e dezaoito”. Mora com a mulher, Ângela, nascida em 1922. A casa fica perto da Igreja da Anta Ruiva. Para ir às celebrações dominicais, basta atravessar a estrada, muito menos do que caminhava na juventude, até a Igreja Matriz de São Mateus. Hoje, ele estima que gastavam em torno de uma hora e meia no trajeto.

- Eu casei veio. Não casei cedo porque gostava dos bailes, conta o risonho Mariano.
Ele tinha 25 anos e ela tinha 22.

- Conheci ela andando pela estrada, até que um dia cheguei na casa dela e deu ponto. Daí chega uma hora que tinha que casar, era muita caminhada ir todo domingo tomar chimarrão, tinha que trazer pra casa pra tomar chimarrão.

A festa aconteceu numa quarta-feira. De manhã, foram à Igreja, beijar o padre, como diz Seu Mariano. Como era costume na época, a festança aconteceu na casa dos pais da noiva. Tinha dança e grito, acompanhados do som do rabecão, do bumbo e do violino.

- Era bonita a minha menina, agora ta feia. Tamo os 2 feio, brinca.

Aos 92 anos, Mariano não deixa de fazer o serviço a que sempre foi acostumado. Ele mesmo se encarrega de manter a frente da casa roçada e explica que não está velho:
- Usado, porque velho é trapo. Essa gente antiga morreu tudo, só eu não quero morrer. Só eu fiquei pra sopa.

O casal teve no total sete filhos, mas os únicos dois homens já faleceram. As filhas Sofia, Barbara, Madalena, Teresa e Gina se revezam para cuidar do casal. Sofia é desconfiada e não dá trela a desconhecidos:

- Posso gravar nossa conversa?, pergunto.

- Acho melhor não, diz receosa.

Quer saber o porquê do trabalho, se é mesmo necessário. De onde eu sou, onde moro e a que família pertenço. Mas, não deixa de ser educada:

- Me desculpe de estar fazendo tanta pergunta, é que a gente tem medo. O pessoal sempre avisa na rádio que tem que ter cuidado... A senhora aceita um copo de suco?
Na despedida, seu Mariano não para de contar suas histórias:

- É que eu sempre fui papudo e cada vez pior. Temo que brincar, a tristeza só mata a gente.

Dona Ângela, que já não escuta muito bem e entende melhor o polonês, fica quieta, sentada por perto durante toda a conversa. Só me diz na saída:

- Que Deus te acompanhe.

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Risos para espantar a velhice

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Na casa de madeira de paredes verdes, a janela veneziana está fechada, embora a noite ainda não tenha caído. Clap, clap, clap, no portão e a porta logo se abre. De dentro surge uma mulher, é Barbara, seguida de perto pelo pai.

- Boa tarde, Seu Mariano, tudo bom?, pergunto

- Bom igual palanque no banhado, responde aos risos, deixando à mostra um dente solitário.

Mariano Wenglarek nasceu no dia 08 de janeiro de “mil novecentos e dezaoito”. Mora com a mulher, Ângela, nascida em 1922. A casa fica perto da Igreja da Anta Ruiva. Para ir às celebrações dominicais, basta atravessar a estrada, muito menos do que caminhava na juventude, até a Igreja Matriz de São Mateus. Hoje, ele estima que gastavam em torno de uma hora e meia no trajeto.

- Eu casei veio. Não casei cedo porque gostava dos bailes, conta o risonho Mariano.
Ele tinha 25 anos e ela tinha 22.

- Conheci ela andando pela estrada, até que um dia cheguei na casa dela e deu ponto. Daí chega uma hora que tinha que casar, era muita caminhada ir todo domingo tomar chimarrão, tinha que trazer pra casa pra tomar chimarrão.

A festa aconteceu numa quarta-feira. De manhã, foram à Igreja, beijar o padre, como diz Seu Mariano. Como era costume na época, a festança aconteceu na casa dos pais da noiva. Tinha dança e grito, acompanhados do som do rabecão, do bumbo e do violino.

- Era bonita a minha menina, agora ta feia. Tamo os 2 feio, brinca.

Aos 92 anos, Mariano não deixa de fazer o serviço a que sempre foi acostumado. Ele mesmo se encarrega de manter a frente da casa roçada e explica que não está velho:
- Usado, porque velho é trapo. Essa gente antiga morreu tudo, só eu não quero morrer. Só eu fiquei pra sopa.

O casal teve no total sete filhos, mas os únicos dois homens já faleceram. As filhas Sofia, Barbara, Madalena, Teresa e Gina se revezam para cuidar do casal. Sofia é desconfiada e não dá trela a desconhecidos:

- Posso gravar nossa conversa?, pergunto.

- Acho melhor não, diz receosa.

Quer saber o porquê do trabalho, se é mesmo necessário. De onde eu sou, onde moro e a que família pertenço. Mas, não deixa de ser educada:

- Me desculpe de estar fazendo tanta pergunta, é que a gente tem medo. O pessoal sempre avisa na rádio que tem que ter cuidado... A senhora aceita um copo de suco?
Na despedida, seu Mariano não para de contar suas histórias:

- É que eu sempre fui papudo e cada vez pior. Temo que brincar, a tristeza só mata a gente.

Dona Ângela, que já não escuta muito bem e entende melhor o polonês, fica quieta, sentada por perto durante toda a conversa. Só me diz na saída:

- Que Deus te acompanhe.

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Sobre este blog

Se tenho um blog e tenho um trabalho de faculdade a fazer, porque não compartilhar essas histórias? Decidi escrever aqui sobre as pessoas que encontro durante a realização do projeto experimental para conclusão do curso de Jornalismo na UFSM. Espero que a leitura desses erelatos seja um prazer.

Quem sou eu

Brazil
Estudante de jornalismo. Uma polaca paranaense perdida nas terras gaúchas, mas que não esqeceu suas origens, pois, como disse Paulo Leminski, "pinheiro não se transplanta".

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