É tempo de folia. O país parece girar em torno do carnaval. Mas, alheias a toda a movimentação carnavalesca, algumas pessoas vêem em nada mudar a sua rotina. Numa casa de madeira na Colônia Cachoeira, Seu Pedro irá passar os dias de folia com o mesmo marasmo que tem sido seu companheiro fiel.
Quando jovem, ele até se aventurava nas folias de carnaval em São Mateus, já que nas colônias eram dadas só aos bailes polacos, nada de samba ou de marchinhas. Mas, nos dias de hoje, sua ocupação é tomar chimarrão com o único filho que ainda mora com ele. Preocupa-se com a pressão arterial que os remédios não conseguem controlar totalmente. Incomoda-se com os mosquitos que invadem a casa no verão. E aguarda alguma visita, que nem sempre chega. Sabe como é, todos tem muito trabalho a fazer. Os filhos aparecem, sim, mas Seu Pedro entrega: “é mais quando precisam de alguma coisa”.
Um dia desses Estevão estava por lá, de carroça. Fora devolver um ventilador de limpar feijão que havia emprestado do pai.
- Ventilador?, pergunto, deixando claro que nunca plantei ou colhi feijão.
- É, ventilador, deixa o feijão bem limpinho. Quer ver? Fui eu que construí, responde Seu Pedro, já se encaminhando para o paiol ao lado da casa.
Diante do instrumento, Seu Pedro demonstra facilidade em manuseá-lo. Girando a manivela, parece que um pouco de sua juventude volta à tona. Além do ventilador, o paiol deve lhe trazer muitas recordações.
O que agora é depósito de ferramentas, já foi a casa dos pais de Seu Pedro. A madeira é daquelas boas, que já não se encontra facilmente: pinheiro e imbuia. Tábuas e vigas foram feitas a muque, como se diz na colônia, pois, na falta de serraria por perto, os colonos usavam serras manuais e o esforço braçal. Depois da morte dos pais, o filho que cuidou deles até o fim tratou de reaproveitar o material da casa.
Agora, o homem trabalhador, que construiu o ventilador de feijão, já deu lugar ao idoso resignado ao tempo. Ainda assim, não resisto a uma brincadeira:
- E esse ano, não vai pular carnaval, Seu Pedro?
- Pois quem sabe vou, né?
- Tá certo, pede pra um dos filhos te levar...
- Ah, isso dá pra ir até a pé!
E entrega-se à risada, mostrando a sua alegria cativante. E, na saída, não deixa de fazer uma piadinha com esta humilde repórter:
- Vai conseguir tirar o carro daí, ou vou ter que ir tirar para você?
Consigo tirar o carro sem fazer feio e vou-me embora. Feliz pelo reencontro, mas, ao mesmo tempo, triste, por deixar para trás aquele senhor sorridente, mas solitário.
