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Entre datas, nomes e subversões

Cuidado. Atrás daquele balcão de banca de jornal encontra-se um homem subversivo. Quem entra na Banca Nadolny, certamente, não se sente ameaçado por aquele senhor de cabelos brancos e de porte físico que pende mais para o tipo franzino. Ah... mas ele já botou medo em militares e generais.

Nos idos da ditadura militar, Romeu Nadolny trabalhava na Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto (SIX) da Petrobras em São Mateus do Sul. A chefia da SIX naquela época não ficava em São Mateus. Romeu compara a situação daquele tempo com o colonialismo no Brasil. Como colônia de Portugal, as terras brasileiras serviam só para abastecer a coroa portuguesa. Assim, a SIX em São Mateus servia para abastecer a chefia da Petrobras. Tudo para a coroa, nada para a colônia.

Por ser contra, Romeu levou muito mais do que o rótulo de subversivo. Foi demitido, junto com outros companheiros, num processo intitulado de “expurgo” na imprensa da região. Hoje, ele mostra um atestado conseguido num quartel de Curitiba de que nada consta contra ele nos registros.

O atestado de bom cidadão de acordo com a lei hoje está cuidadosamente alocado em uma pasta catálogo, junto com o manifesto escrito por colegas de trabalho traidores e enviado aos superiores que acabou causando o “expurgo”. Romeu é assim. Guarda tudo. Documentos. Fotos. Livros. Datas e nomes. Parece uma biblioteca em carne viva. E do tipo raro: especializada na história de São Mateus do Sul. Nessa biblioteca, há estantes sobre a colonização polonesa, sobre a navegação no Rio Iguaçu, sobre extração da erva mate, sobre a exploração do xisto e sobre as falhas de certas personalidades são-mateuenses.

Aquele senhor atrás do balcão é de fato subversivo. Vai contra os que acham que documentos não têm importância. Que madeiras de construções antigas têm que ser jogadas fora. E, especialmente, contra os que acham que a história da sua terra não tem valor. Quem dedica um pouco do seu tempo a ouvir aquele senhor subversivo, certamente levará muita informação e conhecimento consigo.

O espaço polonês nas rádios

O salão de uma sociedade. Um galpão. Ou até dentro de casa. Nas primeiras décadas do século XX, todo lugar estava apto a receber um baile dos imigrantes poloneses. No entardecer do domingo, os colonos se reuniam para a diversão, ao som do violino, rabecão, viola, clarineta e do bumbo. Os músicos eram, geralmente, agricultores, que aprenderam a tocar músicas polonesas com os pais ou avós.

A animação dos imigrantes e o gosto pela música perpassou gerações e transcendeu o espaço dos salões. Inspirados nesses músicos, em 14 de agosto de 1983, surge, na Rádio Difusora do Xisto, o primeiro programa polonês, chamado “Godyna Polska” (hora polonesa), criado por João Janowski, Edison Carlos Schramm, Francisco Caminski e Henrique Janowski.

Dez anos depois, a Braspol, núcleo de São Mateus do Sul, também se engajou na preservação da música polonesa. No dia 8 de abril de 1993, surge o programa polonês “Tradycje Polskie”, levando além da música, informações de interesse da colônia polonesa de São Mateus e região.

Há quase duas décadas no ar, o programa conquista uma boa audiência, misturando as músicas tradicionais a novas canções polonesas. Prova de que tradição de modernidade podem, sim, conviver lado a lado.

Uma caixa de velhas lembranças

A um baú, em que se guardam pequenos tesouros, a memória humana se assemelha. A alguns, basta abrir esse baú e deixar que as memórias vazem e alcancem os ouvintes mais próximos. Para outros, é necessário vasculhar as lembranças e encontrar uma forma de conservar as mais preciosas.

Tadeu Przyvitowski tem 72 anos e é neto de imigrantes poloneses. Em sua memória, ele guarda muitas recordações da sua infância, das histórias que seu avô Vicente contava, bem como das músicas e orações em polonês que aprendeu desde pequeno.

Com a voz rouca de quem é capaz de dar cabo de cinco cigarros em pouco mais de duas horas, ele narra suas histórias. São recordações de um tempo diferente, de uma vida dura, mas que deixa saudades. De quando a Colônia Iguaçu, em que hoje ele mora com a esposa e com a filha, tinha umas poucas casas. Quando a única Igreja existente era a Matriz de São Mateus e os colonos andavam quilômetros a pé ou de carroça até a missa. Bicicleta era artigo de luxo.

Naquele tempo, o respeito dos filhos para com o pai era diferente. Nos finais de semana, ou nos fins de tarde, era muito comum as famílias se visitarem. Nessas ocasiões, os mais velhos se reuniam dentro da casa para conversar, enquanto a piazada ia para uma cozinha que ficava para fora da casa, para não escutar a conversa alheia.

O polonês era a língua utilizada por esses colonos, mas que foi se perdendo com o tempo. Hoje, dos três filhos de Seu Tadeu, só Ana, que ainda mora com os pais, conversa em polonês. Já os netos, sequer aprenderam a língua dos antepassados.

Sentado em uma cadeira de balanço na varanda de casa, seus pequenos olhos azuis deixam transparecer o desejo que a cultura popular trazida pelos imigrantes da Polônia não se perca. Acostumado a cantar e a rezar em polonês nas celebrações da capela de sua Colônia ele decidiu fazer algo mais.

Há algum tempo deu início ao empreendimento de gravar o que aprendeu com o avô em fitas cassetes. Até agora são quatro fitas completas com músicas e orações. O próximo passo é encontrar ajuda para digitalizar e organizar o conteúdo. Assim, ele vai deixando seu baú de memórias em ordem, pronto para compartilhar com quem se interesse.

Pedro Aracheski

“Se eu levantar as mãos para o céu, caio de costa no chão!”. Aos 91 anos, a saúde de Pedro Aracheski dá sinais de cansaço. Quando mais novo, só precisou visitar o médico uma única vez, por conta de uma sinusite. Hoje, a tontura e a pressão alta inspiram cuidados e medicação contínua, além de impedir a atividade a que Pedro mais se dedicou: o trabalho pesado.

“Dantes tempo não tinha essas modernagem, era tudo feito a muque, a força. Agora, vem uma máquina e em 15 ou 20 minutos, faz por 30 homens”. Palavras de um homem que aos 12 anos começou a trabalhar com arado, ajudando na lavoura do pai. Sendo o penúltimo dos doze filhos, coube a ele ficar ajudando o pai no serviço, que não era pouca coisa. Quando era época de carpir no meio da plantação, ele contava com a ajuda das filhas dos vizinhos, com as quais tinha amizade.

A abertura da estrada que passa pelo lugar conhecido como Serra dos Carrilho também contou com suas mãos, derrubando pinheiros a machado durante seis meses. O trabalho rendia quatro mil réis por dia, que, segundo Pedro, era um bom dinheiro. Outros onze anos de sua vida foram empregados no feitio de erva no barbaquá dos Toporowicz, mas esse serviço já não era tão rentável.

Pedro casou aos 27 anos, com uma mulher de 17. Achava que era muito velho para a união com a moça, “mas ela queria...”, conta ele. O casamento aconteceu na Igreja de São Mateus e a festa na casa dos pais da noiva, no Rio das Pedras. O trajeto da casa até a Igreja foi feito de carroça, debaixo de chuva “chegamos feito uns pinto molhado”, se diverte ele.

Se ele não dependeu de médico durante a maior parte da vida, sua esposa teve destino diferente. Ela faleceu há 23 anos, no dia 04 de agosto, vítima de câncer. O tratamento exigiu investimentos financeiros e trouxe sofrimento para o esposo. Sem a mulher, ele não quis continuar vivendo na localidade do Rio das Pedras, aonde tinha ido morar após o casamento. Comprou um terreno e voltou para a Colônia Cachoeira, onde morara com seus pais.

No cômodo da frente da casa de madeira, que ele mesmo construiu para a esposa e remontou na nova localização, as paredes de um rosa forte abrigam muitos quadros de santos e vários porta-retratos. São imagens do casamento dos filhos e filhas, além de flagrantes da juventude.

O senhor dono de olhos azuis reluzentes diz que já viu lobisomem e outras visagens, mas nunca teve medo. Conta também que sua madrinha deixou um ouro enterrado pra ele e, depois de morta, apareceu para avisá-lo. Mas nunca foi atrás do tesouro: “dizem que quem pega esses ouro enterrado vive só mais uns poucos dias”. Abrir mão da sinistra herança parece ter lhe concedido a oportunidade de viver muitos mais do que a maioria dos seus companheiros de juventude e de conviver com a família grande, com 8 filhos, 34 netos e 13 bisnetos. Assim, Pedro passa seus dias. Sem poder fazer muita coisa, contenta-se em contar suas histórias para quem vai visitá-lo.

Risos para espantar a velhice

Na casa de madeira de paredes verdes, a janela veneziana está fechada, embora a noite ainda não tenha caído. Clap, clap, clap, no portão e a porta logo se abre. De dentro surge uma mulher, é Barbara, seguida de perto pelo pai.

- Boa tarde, Seu Mariano, tudo bom?, pergunto

- Bom igual palanque no banhado, responde aos risos, deixando à mostra um dente solitário.

Mariano Wenglarek nasceu no dia 08 de janeiro de “mil novecentos e dezaoito”. Mora com a mulher, Ângela, nascida em 1922. A casa fica perto da Igreja da Anta Ruiva. Para ir às celebrações dominicais, basta atravessar a estrada, muito menos do que caminhava na juventude, até a Igreja Matriz de São Mateus. Hoje, ele estima que gastavam em torno de uma hora e meia no trajeto.

- Eu casei veio. Não casei cedo porque gostava dos bailes, conta o risonho Mariano.
Ele tinha 25 anos e ela tinha 22.

- Conheci ela andando pela estrada, até que um dia cheguei na casa dela e deu ponto. Daí chega uma hora que tinha que casar, era muita caminhada ir todo domingo tomar chimarrão, tinha que trazer pra casa pra tomar chimarrão.

A festa aconteceu numa quarta-feira. De manhã, foram à Igreja, beijar o padre, como diz Seu Mariano. Como era costume na época, a festança aconteceu na casa dos pais da noiva. Tinha dança e grito, acompanhados do som do rabecão, do bumbo e do violino.

- Era bonita a minha menina, agora ta feia. Tamo os 2 feio, brinca.

Aos 92 anos, Mariano não deixa de fazer o serviço a que sempre foi acostumado. Ele mesmo se encarrega de manter a frente da casa roçada e explica que não está velho:
- Usado, porque velho é trapo. Essa gente antiga morreu tudo, só eu não quero morrer. Só eu fiquei pra sopa.

O casal teve no total sete filhos, mas os únicos dois homens já faleceram. As filhas Sofia, Barbara, Madalena, Teresa e Gina se revezam para cuidar do casal. Sofia é desconfiada e não dá trela a desconhecidos:

- Posso gravar nossa conversa?, pergunto.

- Acho melhor não, diz receosa.

Quer saber o porquê do trabalho, se é mesmo necessário. De onde eu sou, onde moro e a que família pertenço. Mas, não deixa de ser educada:

- Me desculpe de estar fazendo tanta pergunta, é que a gente tem medo. O pessoal sempre avisa na rádio que tem que ter cuidado... A senhora aceita um copo de suco?
Na despedida, seu Mariano não para de contar suas histórias:

- É que eu sempre fui papudo e cada vez pior. Temo que brincar, a tristeza só mata a gente.

Dona Ângela, que já não escuta muito bem e entende melhor o polonês, fica quieta, sentada por perto durante toda a conversa. Só me diz na saída:

- Que Deus te acompanhe.

Impressões de uma quase jornalista

Para ser um bom jornalista é preciso curiosidade, sensibilidade, perspicácia e precisão. Tem que saber perguntar e saber ouvir. Mais do que um bom texto, é preciso ter cultura ampla. Essas características sempre em disseram que são fundamentais para um bom repórter. Mas antes mesmo de julgar que as desenvolvo bem, descobri uma série de fatores que são fundamentais.

Em busca de boas histórias realmente é preciso sujar o sapato. E o carro também, rodando por estradas do interior logo após uma chuva de verão. Sempre atento para não atropelar a galinha que atravessa a estrada com a sua ninhada. Nessas andanças, o senso de localização é essencial para encontrar a casa do Fulano, seguindo indicações não muito precisas:

- Perto da Igreja da Anta Ruiva, depois da subida.

O que facilita o trabalho é saber reconhecer a casa de um polaco: a madeira pintada com cores vivas, muitas vezes com lambrequins no beiral. Em torno da casa crescem flores das mais variadas espécies.

Localizada a casa certa, vem outro desafio: contornar o ar de desconfiado do polaco. Quando um jovem desconhecido bate no portão da sua casa, pedindo que lhe contem as histórias de sua vida, a expressão de estranhamento é sempre a mesma. Explicar que se trata de um trabalho para a faculdade geralmente é muito pouco para pessoas que por poço tempo freqüentaram a escola. Nesses casos, como se trata de uma cidade pequena, falar o sobrenome sempre ajuda na identificação.

Vencidas as barreiras iniciais, as conversas costumam ser agradáveis. Pessoas com mais de 90 anos, estão sempre dispostas a contar histórias de suas vidas, basta alguém com boa vontade para ouvi-las.

E assim, eu vou unindo duas coisas que me apaixonam: o jornalismo e a história da colonização polonesa na minha cidade natal, São Mateus do Sul. A partir de hoje, me proponho a postar aqui todas as minhas percepções e as histórias interessantes que encontro no desenvolvimento do projeto experimental com o qual pretendo, através do perfil de idosos, filhos de imigrantes poloneses, resgatar a história da colonização. Sinceramente, não espero que alguém, além de mim mesma, leia, mas se você está lendo, tem meu agradecimento.

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Entre datas, nomes e subversões

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O espaço polonês nas rádios

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Uma caixa de velhas lembranças

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Pedro Aracheski

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Risos para espantar a velhice

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Impressões de uma quase jornalista

Sobre este blog

Se tenho um blog e tenho um trabalho de faculdade a fazer, porque não compartilhar essas histórias? Decidi escrever aqui sobre as pessoas que encontro durante a realização do projeto experimental para conclusão do curso de Jornalismo na UFSM. Espero que a leitura desses erelatos seja um prazer.

Quem sou eu

Brazil
Estudante de jornalismo. Uma polaca paranaense perdida nas terras gaúchas, mas que não esqeceu suas origens, pois, como disse Paulo Leminski, "pinheiro não se transplanta".

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